Afinal, a música é caminho para a felicidade?

“Eu vos digo: é preciso ainda ter caos dentro de si, para poder dar a luz uma estrela dançante” (Assim Falou Zaratustra) Nietzsche

Olá galera, tudo bem com vocês?

Meu nome é Ricardo Giuffrida, sou médico psiquiatra, além de violonista como poderão ler ao final desse texto, sendo sempre um privilégio poder conversar com você, leitor assíduo do blog SANTO ANGELO, principalmente nesses tempos de muitos desafios.

Dificilmente nos deparamos com um músico que não seja apaixonado pelas atividades que orbitam a Música, não é mesmo?

Aulas, gravações, apresentações, palestras, equipamentos, estudos. Mas trabalhar com a paixão por vezes pode ser uma armadilha.

A gratificação objetiva, necessária em toda profissão, como ganhar dinheiro e ter reconhecimento por clientes e no meio profissional, por vezes é substituída pela gratificação pela própria execução da atividade em si.

Tocar é muito bom, e muitas vezes vale a pena apenas por isso.

Dificilmente vemos outro profissional trabalhando de graça (ou pagando para trabalhar). Imagine um médico dando um plantão de graça, apenas para ter visibilidade em futuros trabalhos, ou um advogado representando um cliente por amor a arte do Direito.

Pois é, o músico muitas vezes trabalha de graça.

Talvez pela necessidade de criar demanda no mercado, que é saturado de bons profissionais.

Trabalhar com a paixão, muitas vezes demonstra também a dificuldade de lidar com a privação. Ter um outro emprego e ser privado de ficar com o instrumento e pensar o dia todo em Música, pode ser muito doloroso para um apaixonado.

Além disso, trabalhar o tempo todo com a paixão traz qualquer um pra muito perto do sofrimento psíquico.

As exigências constantes de: melhora de performance, compor com excelência, ser referência no saber; juntos à frustração da profissão e falta de gratificação monetária aproximam o músico do adoecimento emocional.

Esse adoecimento psíquico pode ser manifestado com sintomas depressivos, ansiosos, uso de drogas entre outros.

A nutricionista Arlete R. Souza já abordou esse tema nesse excelente post  sob o ponto de vista alimentar, mas temo que as chances de agravamento dos sintomas ultrapassem esses cuidados.

Obviamente o adoecimento psíquico tem os seus componentes biológicos, mas pode ser potencializado, a meu ver, por atividades que lidam constantemente com a emoção.

Historicamente acredita-se que a Criatividade pode estar relacionada a transtornos psíquicos como Transtorno Bipolar, Depressão e Ansiedade por exemplo. Mas também há literatura que mostra declínio de Criatividade e Produtividade, principalmente em quadros com emoções negativas, que podem impedir o indivíduo de se expressar adequadamente.

São conhecidos, casos de músicos supostamente com diagnósticos de transtorno mental, como o baixista Jaco Pastorius, o guitarrista e cantor Kurt Cobain, o saxofonista Charlie Parker, o pianista Bill Evans, que, apesar das suas reconhecidas genialidades, tinham uma vida bastante turbulenta, resultando inclusive na morte prematura.

O limite entre a inspiração profunda e a improdutividade total é por muitas vezes tênue.

Também é bastante constante a associação de músicos com o uso de substâncias como álcool, maconha, cocaína, heroína, alucinógenos entre outros.

Alguns artistas consideram que o uso de drogas pode ser uma forma de ampliar os limites da consciência, ou uma forma artificial de estimular a criatividade, o que parece do ponto de vista prático bastante inconsistente, pois qualquer atividade artística depende de organização estrutural e da linguagem.

Por exemplo, um músico em estado de intoxicação aguda por alguma droga pode ter a percepção da realidade alterada, e o resultado da execução musical ser insatisfatório com idéias desconexas, andamento inadequado e execução motora alterada.

Além disso, é notória na literatura médica a influência de drogas como cocaína, maconha e álcool nos transtornos como Depressão, Transtorno Bipolar, Ansiedade, e quadros psicóticos como a Esquizofrenia.

Embora historicamente observemos a relação da Criatividade com a “loucura”, não devemos deixar de levar em conta, que os gênios possuem um perfil psíquico sem extravagâncias e que hospitais psiquiátricos não são fábricas de gênios, muito pelo contrario.

Deixando o romantismo de lado, creio ser importante manter a boa saúde psíquica do músico. O contato constante com a emoção pode nos aproximar do sofrimento emocional, o que inegavelmente pode influenciar positivamente a inspiração.

Porém, a atividade musical nos dias de hoje requer desempenho profissional, o que significa boas relações com parceiros de negócios, cumprimento dos compromissos como apresentações e aulas, contato cordial com o público, além de seguir rotina adequada de estudos e produção didática.

Resumindo, gostaria de recomendar a você, leitor, caso reconheça alguns dos sintomas acima descritos em si próprio ou em algum dos seus amigos e amigas (músicos ou não) que não hesite em procurar um profissional da área para ajuda imediata.

Não faça como muitos, que esperam o declínio da carreira para seguir essa recomendação.

Tem alguma dúvida, comentário ou sugestão ao tema? Escreva suas ideias aqui mesmo na parte dos comentários do post ou nas redes sociais da SANTO ANGELO.

Cuide-se e a gente conversa na próxima oportunidade.

Ricardo Giuffrida é violonista, guitarrista, arranjador, compositor, produtor musical e endorsee da Santo Angelo. Autor de diversos métodos como “Violão – Estilos e Técnicas”, “Toque de Mestre – Violão – Técnicas”, colunista da Revista Guitar Player por 10 anos. Foi finalista por cinco vezes do Premio Abril de música e por três vezes do Six String Theory Competition. Além de músico é Médico Psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.