Guitarras Icônicas – Stevie Ray Vaughan: “Number One”

Links - SRV

Por Dr. Alexandre Berni

Olá pessoal!

Hoje continuarei abordando a série “guitarras icônicas” porque falar sobre elas é muito emocionante para mim (espero que seja para muitos de vocês também), pois gosto muito de aprender e admirar histórias de guitarristas notáveis e suas “máquinas mortíferas”. E para quem estiver lendo o blog pela primeira vez, busque os posts anteriores que contam as histórias das guitarras icônicas de Eddie Van Halen, Brian May, Buddy Guy e Jimmy Hendrix.

O escolhido de hoje é Stephen “Stevie” Ray Vaughan, que nasceu em 3 de outubro de 1954, na cidade de Dallas, no estado americano do Texas.  É considerado um “puro” guitarrista de Blues americano, conhecido como um dos mais influentes músicos da história. Antes de conhecer a sua história eu ficava curioso quando via músicos com adesivos em suas guitarras com as letras SRV. Anos depois, eu tive a coragem de perguntar o porquê disso a um guitarrista amigo de uma banda da minha cidade. Já adivinharam que além de passar a maior vergonha por não saber nada sobre o artista, ainda recebi um “bullying amigo” por vários meses por não conhecer Stevie Ray Vaughan. Claro que não quero que passem por isso também, por isso continuem lendo até o fim do post porque vale a pena saber mais sobre esse guitarrista.

Curiosamente, o seu primeiro instrumento foi uma bateria, embora não houvesse nenhuma em sua casa. Depois, tentou tocar saxofone, mas o máximo que ele conseguiu foi produzir alguns grunhidos. Em 1963, ele desobedeceu a ordem do irmão mais velho para que ficasse longe das guitarras dele e, tocando às escondidas, descobriu sua verdadeira paixão e sua identidade com o Blues. Quando Jimmie Vaughan, o tal irmão mais velho, descobriu a “molecagem”, estranhamente não ficou nervoso. Pelo contrário, ao ver o potencial do jovem irmão, deu-lhe de presente uma Gibson Messenger, guitarra que foi logo substituída por uma Fender Broadcaster 1952, outro presente de Jimmie. Já não se fazem irmãos como antigamente, não é mesmo?

Number One - imagem 1

Brincadeiras a parte e antes de seguirmos com nossa história, você não estranhou o modelo de guitarra “Fender Broadcaster”? A história desta guitarra, rebatizada como “Telecaster” mais tarde, foi contada pela Carla Lima neste excelente post sobre segurança cuja leitura recomendo a todos.

Voltando ao nosso assunto, no início da carreira profissional, Vaughan fez apresentações na banda de seu irmão Jimmie Vaughan, tocando contrabaixo, apenas para ter a oportunidade de tocar. Isso lhe parece familiar? Claro que qualquer semelhança é mera coincidência na vida de muitos de nós, não é mesmo? Com a experiência adquirida após tocar em uma série de bandas, Vaughan formou o próprio conjunto de Blues e Rock chamado Double Trouble com o baterista Chris Layton e o baixista Jackie Newhouse no final dos anos 70. Tommy Shannon substituiu Jackie Newhouse em 1981.

Uma vez conhecido localmente, Vaughan atraiu a atenção de David Bowie e Jackson Browne, gravando como guitarrista contratado nos álbuns de ambos. O primeiro contato de Bowie com Vaughan havia sido no Montreux Jazz Festival. Bowie lançou Vaughan em seu álbum “Let’s Dance” na canção com o mesmo nome e também na canção “China Girl”.

O primeiro álbum de Stevie Ray Vaughan & Double Trouble foi lançado em 1983 e aclamado pela crítica como Texas Flood (produzido por John Hammond), onde lançou “Pride and Joy” alcançando o TOP 20 dos sucessos da época. Os álbuns seguintes, “Couldn’t Stand the Weather” (1984) e “Soul to Soul” (1985), alcançaram quase o mesmo sucesso do primeiro álbum. Porém, o vício nas drogas e o alcoolismo, infelizmente comuns aos grandes músicos da época, levaram Vaughan a interromper sua turnê em 1986. Passou por um processo de reabilitação no estado da Georgia e um ano mais tarde, após seu retorno, gravou “In Step” (1989), outro disco aclamado pela crítica que ganhou um Grammy pela melhor gravação de Blues.

SRV é reconhecido pelo timbre único de guitarra, que em parte provém do uso de cordas de maior diâmetro, .013, e também pela afinação meio tom abaixo do normal em (Eb) Mi Bemol. O som e o estilo de Vaughan tocar, que frequentemente mescla partes de guitarra solo com guitarra rítmica, levam-nos a compará-lo com Jimi Hendrix, principalmente porque SRV gravou várias canções de Hendrix em seus álbuns de estúdio e ao vivo, como “Little Wing”, “Voodoo Child (Slight Return)” e “Third Stone from the Sun”.

Infelizmente, na manhã de 27 de agosto de 1990, Stevie Vaughan faleceu em um acidente de helicóptero em virtude do mau tempo, próximo a East Troy, Wisconsin – EUA. SRV seguia para uma apresentação no Alpine Valley Music Theater, onde na tarde anterior se apresentara com Robert Cray, Buddy Guy, Eric Clapton e seu irmão mais velho Jimmie Vaughan. Stevie encontrou um lugar vazio em um helicóptero, com alguns membros da equipe de Clapton, e decidiu embarcar. Muitos diziam que ele tinha muito medo de helicópteros.

Assim, antes de saber sobre as guitarras SRV e qual modelo escolhi como icônico, procure ouvir as músicas desse grande guitarrista e tentar reproduzir algumas delas como forma de estudo e desenvolvimento.

“Number One”:

Number One - Imagem 2

Sem dúvidas, essa é a guitarra mais famosa de SRV e também a mais querida por ele: uma história de “amor e ódio” intensos, se é que posso explicar assim. Ela foi pisada, arranhada, surrada e jogada ao chão por Stevie infinitas vezes. Segundo depoimento do artista, a guitarra era o seu amor por ser a única que se mantinha afinada depois de sofrer estes “abusos”. Nos momentos mais felizes, ele dizia que foi um caso de amor à primeira vista. “Ela estava olhando insistentemente pra mim, enquanto eu a admirava, hipnotizado. Eu a comprei sem nem ter tocado nela antes.”, disse Stevie em uma entrevista.

Tecnicamente era uma Fender Stratocaster pré-CBS (da época antes da venda da Fender para a Columbia), de 1963, de cor “Sunburst”, originalmente com o escudo branco. Stevie trocou o escudo por um preto, a ponte original por um trêmolo para canhotos, os trastes por maiores, tudo isso para adequá-la ao seu estilo intenso e agressivo de executar os Bends.

A “Number One” era constantemente reformada, em virtude dos constantes “maus-tratos” sofridos. Chegou, inclusive, a ter o braço remendado após um show quando parte do palco desmoronou e um holofote de iluminação caiu sobre ela, partindo seu braço em dois. Alguns dizem que seu braço foi substituído pelo de uma Strato de 1959, mas recentemente foi constatado pela própria Fender que ainda era o braço original, com uma restauração muito bem feita talvez pelo roadie, luthier e guitar tech de Vaughan, René Martinez.

História à parte, René era responsável pela continuidade do trabalho de SRV estando pronto para qualquer problema que houvesse no palco, como trocar guitarras em velocidade recorde quando uma corda arrebentava (se quiser ver só a cena, avance para os 3:02, mas se eu fosse você, ouviria a música toda enquanto termina de ler o texto). Confira no vídeo do show em Austin City Limits em 1989:

A Fender recentemente “clonou” a “Number One” em uma tiragem de apenas 100 exemplares, com um preço absurdo (estratosférico para nós brasileiros em tempos de Real cada vez mais desvalorizado), somente mesmo para colecionadores. O nosso já conhecido irmão de Stevie, Jimmy Vaughan (Ex-The Fabulous Thunderbirds), herdeiro da “Number One”, disponibilizou a guitarra para que a Fender observasse, anotasse e tirasse fotos de cada detalhe, a fim de reproduzir de forma perfeita a guitarra mais famosa da história do Blues. Essa é, em minha opinião, a escolhida icônica SRV. Mas continue lendo porque Stevie utilizou outros modelos para dar coloridos e texturas diferentes em suas músicas.

Number One - imagem 3

“Lenny”:

Number One - imagem 4

Outra guitarra usada por Stevie era uma Fender Stratocaster de 1963, presente de sua esposa Lenora Bailey (Lenny). Era uma guitarra de som brilhante, graças ao seu braço em “maple”.  Ele não usava cordas .013 nesta guitarra, mas sim .011. Com ela foram gravadas e tocadas ao vivo músicas mais calmas e jazzísticas, como a homônima “Lenny” e a linda “Riviera Paradise”. Também foi um modelo que a Fender lançou em sua área de Custom Shop.

“Charley”:

Number One - imagem 5

A guitarra “Charley” foi construída e presenteada a Stevie por seu grande amigo, Charlie Wirz. Era uma Stratocaster toda branca e tinha como diferencial o uso de três captadores Danelectro “lipstick tube”, que resultavam em um timbre com característica mais cristalina. Ela tinha uma “pin-up” desenhada nas costas. Quando o amigo morreu, Steve gravou em sua homenagem a linda música “Life by the Drop”, encontrada em seu álbum póstumo “The Sky is Crying”.

“Red”:

Number One - imagem 6

Essa guitarra, denominada “Red”, era uma Fender Stratocaster pré-CBS também, como a “Number One”, originalmente na cor preta e depois pintada de vermelho pela própria Fender para Stevie. Seu braço foi trocado por um de canhoto, talvez em referência ao grande ídolo de Stevie, Jimmy Hendrix.

“Butter”:

Number One - imagem 7

Outra das guitarras de Stevie, conhecida como “Butter”, também era uma Fender Strato que, segundo o luthier Martinez, foi de um cara do “Vanilla Fudge” e tinha buracos e fiação para “quatro” captadores “humbucker”. Porém, Stevie a modificou e instalou apenas um captador “single coil” na posição do braço. Curioso, não?

“Main”:

Number One - imagem 8

A guitarra “Main” foi um presente de seu amigo Billy Gibbons (ZZ Top). Era uma guitarra Custom construída pelo renomado luthier James Hamilton, com o nome de Stevie gravado no braço e vários detalhes luxuosos pelo corpo, bem ao estilo de Billy.

Se você leu até aqui, concorda que este é mais um guitarrista que imortalizou, tanto o seu nome como as guitarras utilizadas, através de sua arte?  Mas uma pergunta que sempre me vem à cabeça é: quem são os guitarristas de hoje em dia que serão imortalizados pela sua obra? Alguém tem uma sugestão?

Participe enviando-nos suas opiniões e comentários além de motivos para não concordar com meu texto. Quem sabe um dia estaremos juntos escrevendo sobre outro brilhante guitarrista.

Grande abraço e até a próxima!