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A música sacra: o começo da música cristã

por Dan Hisa

Antes de tudo, avisamos que o tema é extenso e para ambientá-lo esse post (e tornar sua leitura mais imersiva), sugerimos escolher um dos vídeos que postamos e dê o play para entrar nesse universo. Ou, ouça um pouco sobre a matéria em formato podcast:

De execução mais tímida hoje, mas ainda ativa em grandes igrejas e em muitos cantos da Europa, a Música Sacra pode ser chamada de “mãe” da Música Cristã de hoje, que inclui o rock, o pop ou mesmo as músicas cantadas em cultos e missas Brasil afora. Podemos definir de duas formas o que se chama de sacra: a música com “natureza erudita inerente à tradição judaico-cristão[1] ou, qualquer tipo de melodia utilizada para cerimônias religiosas diversas.

Mas para ser considerada dentro dessa definição, a música precisa ter um significado espiritual, ou seja, se um religioso fizer uma música sem essa aura (sem se basear nas mensagens passadas pela bíblia ou pelos dogmas religiosos), mesmo que tocada dentro de um templo, igreja ou salão, ela não é sacra (existem pesquisadores que discordam desse ponto de vista, porém, não nos aprofundaremos nessa parte porque não é nosso intuito).

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O termo “sacra”, de acordo com as pesquisas, foi utilizado pela primeira vez na Era Medieval, quando a igreja da época sentiu a necessidade de criar uma teoria musical exclusiva para as canções tocadas em missas e ritos de adoração. Dai surgiu o Canto Gregoriano, com nome que homenageava o papa Gregório Magno (540-604 D.C.) que publicou o Antifonário, um conjunto de músicas que continham os cantos da Santa Missa Romana. Esse tipo de canto tinha uma melodia única, formada por várias vozes, que falava de forma musical sobre as passagens bíblicas, passando assim mensagens de forma melódica.

Alguns termos eram utilizados para demonstrar as qualidades desse tipo de música, como: transmitir conteúdo e pontos de vista bíblicos; estimular a vivência do convívio com Deus; opor-se à Música Secular ou mundana; submeter-se à teoria musical pregada pela igreja; conter uma oração terminada em Amém; levar o devoto a perceber que é imperfeito e que seu sacrifício é para sua fé; atuar apenas na glorificação divina e sempre louvar ao Criador, a maioria dessas definições ditas por J. S. Bach (muito depois do período).

Na evolução dessa música, aparece pela primeira vez de forma teórica a Polifonia no ocidente (sabe-se que ela tem origens orientais, mas o seu aperfeiçoamento se deu na Europa), que em definição é a produção de um textura no som utilizando duas ou mais vozes e mantendo o caráter melódico da canção porém ritmo individual de cada voz.

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E nesse momento de evolução, no século XVI, época de Leonardo Da Vinci e Michelangelo e de música com poucos traços de evolução, um dos bispos de Roma caminhava tranquilamente por uma cidade próxima, chamada Palestrina, onde em 1537, ouviu um jovem de 12 anos cantando na rua. Seu interesse foi tão grande que levou o pequeno cantor para um coro de vozes na basílica romana de Santa Maria Maggiore. Começava assim a “carreira” de um importantíssimo, mas esquecido entre os populares, artista da Música Sacra: Giovanni Pierluigi de Palestrina.

Estudioso, detalhista e muito religioso, ele foi considerado pelos pesquisadores como padrinho da Música Sacra, esse compositor aperfeiçoou de forma magistral, e em épocas de poucos “investimentos” na música, o uso da Polifonia (falaremos com mais profundidade sobre ela em um dos nossos próximos posts), aproveitando-se das construções das igrejas e basílicas da época. Mas até o ano de 1544 apenas aprendeu mais e começou a criar sua forma ímpar de enxergar a música.

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Retornando à sua cidade natal, já com conhecimentos avançados na música, Giovanni tornou-se organista e supervisor das músicas de serviço da igreja local onde compôs e executou suas primeiras peças. Manteve esse “emprego” até 1551 onde inovou, colocando em sua música, um elemento até então deixado de lado pela igreja, as pessoas comuns. Como pensava de forma mais natural na musicalização da Palavra, não exigia tanta técnica de quem participava de seus coros (diferente de Roma, que apenas trazia os melhores cantores). Seus cânticos, entoados por homens adultos e meninos (as mulheres eram excluídas na época) tomavam as capelas e enalteciam as orações e missas.

No mesmo ano, aquele bispo, que o tinha encontrado cantando nas ruas, foi eleito Papa Júlio III e logo trouxe Giovanni de volta à Roma, tornando-o mestre de coro da Capela Giulia. Lembra-se que sempre dizemos que você precisa estar preparado para quando a oportunidade aparecer? Pois foi naquele momento, quando o “budget” (orçamento) da igreja para a música aumentou, fazendo com que muitos compositores e mestres de coro do mundo todo fossem atraídos pela possibilidade de ingressar no âmbito musical romano. A força da igreja na música nessa época era tanta, que podemos compará-la nos dias de hoje a uma grande gravadora a nível mundial. Se você regesse ou cantasse em Roma, com certeza sua música chegaria a muitos recantos da Europa. Porém, o único italiano que realmente era tratado como grande músico era Giovanni Palestrina (que ficou muito conhecido levando o nome de sua cidade). E nesse momento de sucesso, escreveu a missa “Ecce Sacerdos Magnus” (“Eis um Grande Sacerdote”, em tradução livre), em homenagem àquele que lhe encontrou e deu a primeira oportunidade.

Em 1555 foi finalmente nomeado como membro oficial do coro da famosa Capela Sistina, mesmo sendo casado, o que causou furor entre os outros membros, que deveriam ser celibatários. Neste mesmo ano, o Papa Julio III faleceu, dando lugar ao Papa Marcelo II, que não suportava as atribuições do papado e, muito doente, morre 21 dias depois de assumir seu cargo.

No lugar do papa morto, entra Papa Paulo IV, de visão conservadora e que colocaria obstáculos na carreira musical de Palestrina. O pontífice começou a questionar sobre a pureza do canto polifônico, que se tornara uma “bagunça” aos ouvidos, já que a sobreposição de tantas vozes não tornava a oração de fácil entendimento., diferentemente do canto gregoriano no qual se conseguia distinguir as palavras nos cânticos. Nesse momento, Giovanni foi dispensado do coro da Capela Sistina por não ser celibatário e assumiu um cargo de menor importância na Basílica de São João Laterano (que tinha uma acústica impressionante, devido ao seu tamanho menor). Não durou muito seu trabalho no local, pois achava que as condições dadas aos cantores do coro eram desumanas (a comida era em pequena quantidade e de péssima qualidade). Isso tem alguma semelhança como os músicos são tratados atualmente?

No período em que Palestrina participava, regia e compunha os coros, estava sendo realizado o Concílio de Trento (1545 a 1563), o mais longo da história da Igreja Católica. Além da pauta com base na fé e disciplina na igreja e na “guerra” contra o Protestantismo de Martinho Lutero, um dos temas discutidos foi o Banimento da Polifonia, no qual seria dado um passo para trás na evolução da música. Foi dito, por um dos participantes do Concílio que “a polifonia só seria mantida caso Palestrina se empenhasse em resolver a questão”. Em resposta e relembrando o papa que assumiu por tão pouco tempo, Giovanni, faz uma composição em homenagem a Marcelo II, a “Missa Papae Marcelli”.

E mesmo quando quase todo o dinheiro da igreja ia para a “guerra” contra o Protestantismo, ele conquistou a atenção dos bispos reunidos no Concílio e barrou o banimento da polifonia e conseguiu um pouco mais de investimentos na música, apesar das alterações requisitadas para o estilo (dando prioridade à mensagem perante a música). Mesmo assim, uma grande conquista para a ousadia de Palestrina.

Em 1585, fundou com outros regentes e músicos a Academia Santa Cecília de Roma (que ainda é ativa, acredite), que formava cantores de coros e formava novos músicos. Ensinou muito do que sabia e fez registros de sua história musical nos últimos 9 anos de sua vida, os quais perduram até hoje nos meios mais eruditos da arte. Morreu em 1594.

Giovanni Pierluigi é um exemplo de criatividade, fé e foco em seu trabalho. Em toda a sua carreira compôs 105 missas, 68 ofertórios, 140 madrigais, 300 motetos, 72 hinos e 35 “magnificats”, todos baseados em seu conhecimento teológico e no que acreditava (e você achando que a banda com 6 CDs de 8 músicas em 30 anos de carreira é muito). Mesmo sendo um compositor não conhecido no meio popular, entre os eruditos é considerado um gênio e um marco para os cantos em corais e para a Polifonia (claro, temos outros nomes importantes, mas nenhum italiano). E claro, para quem gosta das músicas litúrgicas da época, é um prato cheio de sensações, mensagens e aprendizado musical.

Sabia que hoje você pode aprender muito sobre Musica Sacra e até fazer um curso de Canto Gregoriano? Consulte o site da Musica Sacra Latin Music Association of America ou se inscreva no curso (gratuito) do Mosteiro de São Bento, na capital paulista clicando aqui. Se você morar em São Paulo ou estiver de passagem, vale a pena conferir os horários em que o Canto Gregoriano é cantado nas missas neste link.

Por hora, vamos ficar por aqui, mas tenha certeza que continuaremos em breve com a história da Música Cristã, contando sobre alguns autores, uma vez que será o tema do próximo Concurso Cultural SANTO ANGELO, que começa em fevereiro de 2015.

Até a próxima!

[1] SANTANA, Ana Lúcia. Encontrando no endereço http://www.infoescola.com/