Nenhum ser humano ouve o Baixo!

2016-05-23 - FB

Olá pessoal, tudo bem?

Já adianto: não é uma ofensa aos baixistas (afinal, pertenço a essa classe tão mal reconhecida), mas sim uma chamada à um assunto bem interessante que apareceu em nossas pesquisas diárias. Afinal, estamos comprometidos a trazer para vocês tudo o que de melhor existir sobre assuntos correlatos à Música.

Muitos acham que o baixista é um membro dispensável da banda, mas é provado que a sensação física do público depende quase que prioritariamente do baixista (deixando a auditiva a cargo das guitarras e instrumentos mais agudos). E isso foi estudado na McMaster Universtiy Institute for Music and the Mind pela sua diretora e psicóloga Laurel Trainor.

Sim, os baixistas atingem seu público bem no meio do peito.

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Confiram a matéria (traduzida do original em Inglês, que você pode ler aqui) e, no final, ouçam algumas músicas (clássicos do Heavy Metal) tocadas sem e com o baixo (e percebam a diferença).

No limite mais baixo da audição, é dito que humanos podem ouvir sons a partir de 20 Hz, abaixo disso, encontramos um reino sonoro obscuro chamado “infrassom”, faixa escutada por elefantes e toupeiras. Mas, apesar de não podermos ouvir nessas baixas frequências, podemos senti-las em nossos corpos, como fazem muitos sons em intervalos mais baixos de frequência – aqueles que tendem a desaparecer quando ressoados por pequenos fones de ouvido ou alto-falantes de shopping centers.

Como os sons do baixo não estimulam nossos ouvidos como instrumentos de alta frequência, tais como trompetes e guitarras, nós tendemos a menosprezar esses instrumentos – e os instrumentistas – que operam na extremidade inferior do espectro audível (você conhece algum músico famoso que toque trombone?).

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Na maioria das músicas populares, os baixistas não recebem crédito suficiente – mesmo quando o baixo promove um “gancho” essencial para a música. Como o baixista do Led Zeppelin, John Paul Jones, brincou na introdução da cerimônia de premiação do Rock And Roll Hall of Fame de 1995: “obrigado aos meus amigos por se lembrarem do meu número de telefone”.

E ainda, como escreve Tom Barnes para o site music.mic, “há muitas evidências científicas de que os baixistas são os membros mais vitais de qualquer banda… está na hora de tratarmos os baixistas com o respeito que eles merecem”.

Pesquisas sobre a importância dos sons de baixa frequência explicam por que os baixos, na maioria das vezes, tocam as partes rítmicas e deixam os solos para os instrumentos mais agudos. Esse fenômeno não é exclusivo do rock, funk, jazz, dance ou hip-hop. “Músicas de diversas culturas são compostas dessa forma”, diz a psicóloga Laurel Trainor, diretora do McMaster Universtiy Institute for Music and the Mind, “da música tradicional do leste da Índia à música Gamelan de Java e Bali, o que sugere uma origem inata”.

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Trainor e seus colegas publicaram recentemente um estudo no Procedings Of National Academy of Sciences sugerindo que percepções do tempo são muito mais percebidas em frequências baixas, enquanto que nossa habilidade de distinguir mudanças no tom se dá muito melhor nas altas frequências, o que explica por que, escreve a Nature, “saxofonistas e guitarristas frequentemente têm solos com registro agudo” e por que baixistas tendem a tocar poucas notas (essas descobertas são consistentes com a física das ondas sonoras).

Para alcançar essa conclusão, Trainor e sua equipe “tocaram notas agudas e graves ao mesmo tempo”. Os participantes estavam conectados a um eletroencefalograma que media a atividade cerebral em resposta aos sons. Os psicólogos “descobriram que o cérebro era mais bem estimulado quando um tom grave acontecia a 50 MS (milissegundos) antes em comparação quando um tom agudo ocorria 50 MS antes”.

O título do trabalho sumariza perfeitamente o encontrado: “A percepção por mais tempo dos tons musicais mais graves explica por que esses instrumentos estabelecem os ritmos musicais”. Em outras palavras, diz Trainor, “há bases psicológicas para fazermos música da forma que fazemos. Virtualmente, todas as pessoas responderão melhor a batida quando ela é conduzida por instrumentos de frequência inferior”.

O cientista cognitivo da Universidade de Viena, Tecumseh Fitch, pronunciou-se sobre o estudo de Trainor e seus coautores como “uma hipótese plausível sobre por que o som grave desempenha um papel crucial na percepção rítmica”. Ele também adiciona, como escreve a revista Nature:

Por alto, graves mais profundos do que aqueles usados nesse teste, fazem com que as pessoas possam sentir a ressonância em seus corpos, não somente escutar pelos seus ouvidos, nos ajudando a manter o ritmo. Por exemplo, quando dançam, as pessoas surdas podem aumentar os graves e tocá-los bem alto, como diz Fitch: ”eles podem, literalmente, ‘sentir a batida’ pela ressonância do tronco”.

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(…) Alguns de nós mantém o tempo melhor que outras pessoas, porém a maioria de nós sente e responde fisicamente à ritmos com frequências graves.

Instrumentos graves não somente mantém o tempo, mas também desempenham um papel na estrutura harmônica e melódica da música. Em 1880, um livro acadêmico de música informava aos leitores que “a parte grave… é, de fato, a fundação sobre a qual a melodia se deita e sem ela não pode haver melodia”.

Tão verdade quanto naquela época – quando os percursores acústicos do baixo elétrico, sintetizadores e amplificadores provinham o fundo grave – como é verdade agora.

E os graves usualmente definem a nota base de um acorde, independente do que os outros instrumentos estão fazendo.

Como baixista Sting diz que “você controla a harmonia”, assim como uma ancora na melodia. Parece que a importância dos tocadores de ritmos (ou baixistas)[1], embora negligenciada nas apreciações mais populares da música, não pode ser exagerada.

Denso o assunto, não é?

Para ter uma ideia melhor de como os graves realmente influenciam na sua percepção física da música, dê uma conferida nesse vídeo com um fone de ouvido (se você curte Heavy Metal, é um prato cheio):

Diferenças gritantes, conseguiu perceber? Então, toda a vez que disserem, durante o ensaio, que o baixo não importa, faça um teste: pare de tocar por alguns segundos e veja no que a música se transforma (para você e para seus companheiros).

O mesmo acontece com a bateria (bumbo e surdo) que dão também o beat da música não só no ouvido, mas no corpo da banda e de todo o público. Metrônomo melhor não há.

Acho que a lição que esse estudo nos dá é a importância de cada músico dentro de uma banda ou orquestra, construindo não só harmonia e melodia, mas sim todas as sensações que o público irá sentir quando assistir à essas apresentações.

Comente aqui no blog e nas redes sociais da SANTO ANGELO se já teve essa percepção e compartilhe conosco suas experiências.

Um abraço e nos vemos em breve.

Dan Souza é CMO, Relações Artísticas, fissurado em tecnologia e música, além de baixista nas horas vagas e apaixonado por Publicidade, Propaganda, Literatura e Filosofia. Formado em Marketing pela UNINOVE/SP, faz parte, desde 2013, da equipe de Marketing SANTO ANGELO.

[1] Adição nossa.