Será o fim do rock nacional?

2016-01-14 - FB

por Dan Souza

Como se não bastassem tanto pessimismo e desânimo na economia brasileira, começamos 2016 como essa constatação irretorquível (gostaram do novo vocabulário?). Pois é, aqui é Dan Souza, RA da SANTO ANGELO, com mais um tema desafiador para refletirmos juntos, além do meu post anterior sobre como sobreviver em 2016. Clique aqui se ainda não leu.

Alarmante o título, não é? Um pouco sensacionalista, posso dizer, mas é uma preocupação de muitos músicos que nos acompanham e principalmente, de 90% dos guitarristas. Vamos ao fato:

Em uma notícia divulgada no dia 06/01/2016, contava o TOP 100 de músicas mais tocadas nas rádios brasileiras durante o ano que passou. Apesar de já imaginarmos o domínio do Sertanejo e do Funk, foi muito estranho não encontrar nenhuma (repito, nenhuma) música representando o Rock nacional. Pela primeira vez, desde que se faz essa pesquisa, ele ficou de fora do ranking.

E não só o nacional sofreu, mas o Rock internacional também tomou um tombo, tendo apenas dois representantes: “Maroon 5” e “Magic” (que muitos puristas do Rock não consideram). Se não acreditar e quiser ler mais sobre o TOP 100, clique aqui.

Um pouco desacreditado no que lia, fui atrás da lista do meu aplicativo de streaming de música, o “Spotify”. Outro susto: das 100 posições, apenas 7 (isso mesmo, sete por escrito) representam o Rock. Dominando a lista, Justin Bieber (de certa forma, esperado).

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Vamos ter uma ideia dos cenários?

Comecemos pelo nacional quando, em 2005, das 100 mais tocadas, 44 eram de bandas de Rock (era na época dominado por “CPM22”, “Detonautas”, “Fresno” e bandas do Hardcore nacional). Já 5 anos mais tarde (2010), caiu para 26 posições dentre o TOP 100. (fonte: Som do Rádio)

Indo para o internacional, onde a disputa é bem mais acirrada, em 2005 o Rock conquistou 13 posições e em 2010, 9 delas. (fonte: Billboard)

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Mas afinal, o que está acontecendo?

Podemos ver de muitas formas essa queda constante do rock pelo mundo das rádios. Mudanças de personalidade dos jovens consumidores (indo para mp3 e depois, aplicativos de streaming), muitos “porteiros” (do inglês “gate keepers”, ou seja, pessoas que escolhem o que vai tocar na rádio, normalmente regidas pelo famoso “jabaculé” ou “jabá” para os íntimos) e a dificuldade para aprender os instrumentos que compõe uma banda de rock (compare com aplicativos atuais que, em poucos minutos, criam batidas e melodias inteiras sem muita necessidade de aprender).

E para o Rock nacional, vejo mais um entrave: a desunião do movimento que vinha se fortalecendo do final dos anos 80 até o começo da virada do milênio (2000) e se quebrou, dando lugar a um individualismo fora do comum, um isolamento dos músicos, que tornou o Rock, de certa maneira, Underground.

Podem falar: roqueiros, em sua maioria, são egoístas e egocêntricos.

Sei que muitos, nessa parte, vão me olhar com olhos de desgosto (podendo até me odiar), mas peguemos exemplos atuais (e reais), que muitos podem não gostar, mas que estão funcionando: Sertanejo e Funk.

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Escolha uma hora do seu dia, sintonize uma rádio e preste atenção. O pessoal do sertanejo se junta para fazer músicas. Muitos dos sucessos são de composição de uma dupla com participação da outra (ou artista individual), o que impulsiona ambos os lados.

O relacionamento entre os artistas é respeitoso, ás vezes, sendo até uma verdadeira amizade, o que rende participação em shows, DVD’s e gravações. Novamente, um sentido ascendente para todos e para o estilo.

No Funk, esse relacionamento é maior ainda. Veja a quantidade de músicas “MC. X feat MC Y”. É imensa. Apesar das rixas entre comunidades de um e outro (o que já gerou problemas até no rock) o estilo continua crescendo, porque todos estão envolvidos uns com os outros.

E tem mais um ponto a ser abordado.

Em nosso país, apesar da evolução que vêm acontecendo aos poucos na Educação (e bem aos poucos mesmo), a simplicidade musical e os temas corriqueiros (do dia-a-dia) são de simples absorção pela grande maioria do povo. Ou seja, será que não é hora de pensar em um Rock mais inclusivo, que seja entendido pelo ouvinte e não aquela “corrida pelo fingerboard” que destacou tantos nos anos 80? E também, será que não é hora de cobrar mais pelo Ensino da Música nas escolas públicas (já tem até uma lei, desde 2008)?

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Apesar de não concluir intencionalmente o assunto, escrevi esse artigo com o intuito de levantar mais questionamentos na cabeça de vocês, das quais deverão sair os próximos passos, de como o Rock pode evoluir desse período de hiato e voltar à tona, com força e embasamento para estar presente nas próximas gerações de ouvintes.

Só não vale desistir de tocar guitarra, combinado?

Fico à disposição para discutirmos aqui ou  nas redes sociais da SANTO ANGELO.

Um abraço e nos falamos em breve.