Músicos e Guitarras de braços dados

OBONDGESF - FB

por Dr. Alexandre Berni

Aqui no blog da SANTO ANGELO a gente já falou de tantos detalhes práticos das partes e regulagens das guitarras que hoje vamos abordar um tema mais conceitual e matemático ligado aos braços dos instrumentos musicais de cordas. Tenho certeza que, apaixonados que são pela guitarra, certamente colherão bons frutos desse conhecimento. Portanto, fiquem comigo até o fim do texto, combinado?

A construção de um braço de guitarra é trabalhosa e apresenta muitas variáveis de medidas que determinam a qualidade do braço. Para facilitar a compreensão, resumirei em apenas três, as partes que acredito serem fundamentais para um braço bem feito:

  1. Shape;
  2. Raio de curvatura da escala;
  3. Trastes.

Você já deve ter percebido que o braço da guitarra é um ponto muito importante de interação do músico com seu instrumento.

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É claro que os demais componentes da guitarra são importantes também, mas muitos de nós já ouvimos alguém dizer, após experimentar uma guitarra: “essa é mais confortável que aquela”. Mesmo que inconscientemente esta impressão do músico esteja ligada ao formato do braço do instrumento em teste, devemos sempre nos lembrar do dito popular: “chave-fechadura se encaixam perfeitamente”. Se compararmos o braço a uma chave, a mão do músico será a fechadura, ou seja, devemos considerar a constituição anatômica (muito pessoal) apresentada pela mão do músico que melhor se adaptar ao braço do instrumento.

Claro que nosso primeiro pensamento é no tipo de formato transversal do braço que pode influenciar esse “conforto” na hora de tocar um instrumento musical de cordas. Como no decorrer dos anos, desde a invenção da guitarra, foram criadas muitas opções, vejamos como o “shape” é fundamental na construção do braço da guitarra.

O que é um “shape”?

Geralmente a construção de um braço envolve uma ou duas madeiras coladas com um tensor metálico inserido na parte interna. O formato abaulado da parte posterior do braço é o que chamamos de “shape”. Existem muitos tipos que foram sendo adaptados com o decorrer dos tempos e não duvido que surjam outros, conforme as madeiras forem escasseando ou novos materiais sendo descobertos. Eu separei alguns, que acredito serem os mais importantes hoje em dia.

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A figura acima é auto-explicativa e bem simples. Eu, particularmente, prefiro a OVAL C, pois se adapta melhor ao tamanho e anatomia da minha mão esquerda. Também devo lembrar que, após um acidente ocorrido há 3 anos atrás, quando fraturei a articulação da mão esquerda, os demais formatos se tornaram desconfortáveis e até causam dor quando testo guitarras com outros shapes. Vale a pena lembrar também que a espessura do braço pode variar levemente entre a 1ª e a 12ª casa. Um exemplo muito comum são guitarras com braços apresentando espessura de 18 mm na primeira casa e 21 mm na 12ª casa, como na figura abaixo:

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Além da espessura variável no decorrer do braço, existe outra característica chamada “Shoulder”, ou “Ombro” em Português.

Para quem achou graça do termo e não sabe o porquê, informo que tudo começou quando os inventores americanos chamaram de “Neck” (ou “pescoço” em Português) o braço das guitarras, nada mais justo que chamar de “Ombros” as laterais, como demonstrado na figura acima, certo?

Os “shoulders” podem ser simétricos ou assimétricos. Muitas empresas fazem os braços com formas assimétricas, mesmo que muito discreto como na figura abaixo. Segundo os especialistas, esse procedimento proporciona mais conforto para a maioria dos tamanhos e anatomias das mãos de músico. Mito ou não, eu sei que muitos guitarristas levam suas guitarras para luthiers a fim de realizar o “re-shape”, ou seja, adequar o formato do braço do instrumento à anatomia das próprias mãos. Sempre lembro e advirto que esse é um procedimento delicado que pode danificar o braço caso seja realizado por um “luthier” sem experiência ou conhecimento, portanto, procure seu luthier de confiança caso decida fazer essa “operação”.

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Outra característica que considero fundamental é o Raio de Curvatura na construção dos braços. Relembrando os tempos de escola, está escrito em todo livro de Geometria: “o raio de uma circunferência (ou círculo) é definido como a distância do centro a um ponto qualquer da circunferência”. Para não cansá-los com mais definições, ilustro o conceito na figura abaixo, de maneira bastante intuitiva. Os raios mais comuns utilizados nas guitarras estão entre 9,5” (241 mm) à 16” (406 mm). Vale a pena lembrar que as guitarras Fender antigas apresentavam raio de 7,5” (184,1 mm).

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Dependendo dos valores do raio e sua passagem ao longo do comprimento do braço da guitarra, todas as escalas geralmente se encaixam em uma das quatro categorias seguintes:

1 Plano O NUT e a ponte são planos. As cordas estão todos em um único plano e o instrumento não tem um raio (o raio é em um sentido infinito).
2 Cilíndrico O braço tem um raio constante, a escala, o NUT e a ponte têm o mesmo raio.
3 Cônico O braço possui um raio variável, geralmente em progressão linear do NUT para ponte. Às vezes também é chamado de raio composto. O NUT e a ponte são curvos, sendo o raio do NUT é menor que o da ponte.
4 Composto Embora não seja estritamente cônico, o NUT é curvo e a ponte linear. Todas as peças da escala terão alguma curvatura, mas o formato da escala não é propriamente um cone.

Finalmente, a 3ª característica fundamental, já citada acima, é o traste ou “fret” e seu posicionamento na escala do braço do instrumento. Por ser matematicamente calculado, qualquer desvio de medida na instalação dos trastes pode acarretar em distúrbios de afinação da guitarra ou violão. E para dificultar ainda mais o entendimento, os trastes também podem variar no formato e perfil, sendo identificados por essas particularidades:

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Eu acredito que ao ler este post, você ficará curioso em saber se a sua guitarra tem os trastes colocados adequadamente na posição correta.

Para isso vou indicar um site que julgo o mais confiável para obtenção dos valores corretos do posicionamento dos trastes para sua conferência, com um visual simples e de fácil operação e entendimento:

Fret Calculator

Para exemplificar, transcrevo o resultado obtido para uma guitarra de 21 trastes. Só adicionei o número de trastes e o comprimento entre o nut e a ponte. Assim que entender o exemplo, faça outras simulações para se acostumar com os cálculos:

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Bridge placement for 65.000″ scale length

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Espero ter despertado a curiosidade de vocês em se aprofundar no entendimento do instrumento que tanto amamos e aguardo comentários sobre o que acharam ou possíveis dúvidas para tentarmos esclarecer e aprender juntos.

Até a próxima.