O herdeiro da Guitarra Baiana

Por Isis Mastromano Correia

Falar de um capítulo tão único quanto especial da história da Música em tempos de internet não é lá missão muito grata. Diante de algo grandioso é certo que fiquemos apequenados frente a dimensão da obra genial de Dodô e Osmar e sua criação que hoje leva o nome de Guitarra Baiana. Eles são os mentores de algo sem igual e conseguiram cativar desde os anos 40 toda uma legião de guitarristas – muitos, bem jovens – que se multiplicaram e trouxeram até o século 21 essa guitarra, porque não dizer, brasileira!

Nos dias pré-carnaval em que a SANTO ANGELO tem levantado o tema nas redes sociais, recebemos provas cabais do quão a Guitarra Baiana é querida, respeitada e a chama do legado deixado pela dupla de baianos segue feito brasa esquentando o Carnaval e tudo o mais que vier pela frente.

Família Macêdo, de Armandinho, herdou o legado da guitarra baiana

Escolher o que mencionar a respeito de uma venerável biografia significa na verdade selecionar o que vai ficar de fora. Quem respira dia e noite os sons da Guitarra Baiana sentiu falta, por exemplo, de serem citados ícones da luthieria, músicos, nomes que estão despontando no cenário musical, isso sem falar em vários outros aspectos da guitarrinha – assim chamada não por menosprezo, mas, por ser pequenina. Assim, teve gente também que entendeu que tratamos a Guitarra Baiana como uma simples réplica em miniatura da guitarra popular convencional. Calma: sabemos que a Guitarra Baiana é autoral, tem identidade própria e a isso, toda a nossa reverência!

Nesse grande livro chamado Guitarra Baiana há sim um capítulo que não tem como ser abreviado: Armandinho Macêdo. Um pouco da história do herdeiro direto do instrumento que tem atravessado décadas fecha a nossa série de artigos para o Carnaval.

Não, não estamos falando do Armandinho das canções praianas. Estamos falando do filho de Osmar Macêdo que inventou o pau-elétrico junto com seu parceiro Dodô na década de 40 e que iniciaram a história toda da Guitarra Baiana.  Armandinho, hoje com 60 anos, tão cedo quanto pôde aprendeu a desempenhar a Música no pequeno instrumento eletrificado e acompanhou por alguns anos o pai e seu parceiro a partir de 1974, data em que o conjunto “Trio Elétrico Dodô e Osmar” lançou seu primeiro disco e “inaugurou” um cantor frente à banda que era, até então, apenas instrumental: Moraes Moreira, tido como o primeiro cantor de Trio Elétrico quando o termo é pensando da maneira como entendemos hoje (falamos desse tema no post passado).

Os outros filhos de Osmar, Betinho, Aroldo e André, também se juntaram ao Trio Elétrico firmando os Macêdo definitivamente na rota da Guitarra Baiana (ainda não batizada dessa forma), refletindo o DNA musical da família que conviveu toda uma vida diante da construção e desconstrução dos instrumentos e a alquimia do som.

Betinho, André, Aroldo e Armandinho – os irmãos Macêdo

Armandinho foi quem rompeu os laços com os nomes pau, caquinho e bandolim elétrico e batizou o pequeno instrumento de Guitarra Baiana, em 1975. Oito anos depois, ele acrescentou ao instrumento uma quinta corda para obter um som mais grave e um maior relevo harmônico.

Para agilizar a vontade do menino Armandinho em fazer música, Osmar montou para ele, à beira dos seus 12 anos de idade, o Mini Trio, em 1964, onde saia pelas ruas com a meninada atrás. Na série de depoimentos “Made In Bahia”, publicada no canal YouTube do Trio Elétrico (http://migre.me/i5o7P), Armandinho conta que, sob a influência de Beatles e Rolling Stones, quis que seu cavaquinho elétrico tivesse o “formato da guitarrinha”, segundo suas palavras.

“A coisa da guitarra foi tomando conta do pessoal. Eu me apaixonei por Beatles, comecei a tocar o guitarrão (como a guitarra convencional é chamada pelos músicos da Guitarra Baiana) e essa coisa da guitarra é que me levou a querer ter a minha guitarrinha em vez de ter aquele formato (de cavaquinho), que, para mim, representava uma coisa antiga até ali”, explica Armadinho na série de vídeos e emenda que, em meados de 1967, Dodô era procurado também para construir o guitarrão porque era muito difícil conseguir um instrumento desses na época.

Armandinho no Trio em 1979

Foi naquele ano, 1967, que Armandinho ganhou sua primeira guitarrinha das mãos de Dodô, já estabelecida no formato da guitarra que popularmente é conhecida e conforme ele sonhava. Armandinho conta que “aquilo representou um avanço espetacular” para ele e que “ali estava sendo delineado o que a guitarrinha veio a ser posteriormente: a Guitarra Baiana”!

Ele conta ainda que a banda Trio Elétrico passou a fundir seu som autoral com o som do rock. “Tinham pessoas que comparavam ao Jimmy Hendrix, ao Pink Floyd, principalmente quando a gente fez o segundo disco ‘É a Massa’”, conta Armandinho.

Na década de 80, o grupo passou a atuar com o nome artístico de “Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar” como é conhecido até hoje e com os Macêdo sempre à frente.  O nome de Armandinho surge puxando o conjunto em função da projeção que ele alcançou ao lado da banda “A Cor do Som”, do qual participou entre 1977 e 1982.

A “Cor do Som” que inicialmente apoiava Moraes Moreira, acabou por se tornar mais um dos capítulos fundamentais da história da Música nacional por ser considerada uma banda pré-tropicalista, que apostava na mistura do rock com ritmos regionais e música clássica. A “Cor do Som” também foi o primeiro grupo musical brasileiro a participar do renomado Montreux Jazz Festival, na Suíça.

Com o legado do pai em mãos, em plena atividade no Trio, e em carreira solo, Armandinho nunca deixou o instrumento morrer dando a ele performances contemporâneas, originais e modernas arrebatando um nicho de público muito fiel que o consagrou como o Mestre da Guitarra Baiana por seu talento e técnica que, claro, o colocaram também no rol dos grandes pesquisadores, desenhistas e estudiosos do instrumento.

Armandinho com um de seus modelos de Guitarra Baiana mais conhecidos

Armandinho comemora o cinqüentenário de sua trajetória musical em 2014 enquanto o “Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar” chega aos 40 anos de história como os únicos que mantém a originalidade do Carnaval assim como o posto de artistas mais populares da festa que dão voz total à Guitarra Baiana.

Em cima do Trio!

A “Banda Armandinho, Dodô e Osmar” é formada por Armandinho Macêdo (Guitarra Baiana), Aroldo Macêdo (Guitarra Baiana), André Macêdo (Vocal), Betinho Macêdo (Baixo), Gabriel Macêdo (Guitarra), Jorge Brasil (Bateria), Luizinho Assis (Teclado), Emanuel Magno, Ronaldo Oliveira e Tiago Nunes (Percussão), Kaco e Suzana Bello (Backings). Quem esteve em Salvador, pôde conferir a apresentação do Trio Elétrico que se apresentou de sábado à terça de Carnaval no circuito Dodô (Barra/Ondina) e Osmar (Campo Grande/Praça Castro Alves). Ah sim, os circuitos da folia são batizados pelo nome dos pais da Guitarra Baiana!

Armandinho empunha a guitarra em cima do Trio Elétrico

“Eu pensava: tem a guitarra portuguesa, tem a guitarra havaiana, tem a guitarra americana, poxa, nós temos uma guitarra que nasceu na Bahia, que tem toda uma história, gerou um estilo musical. Criou-se uma nova situação musical e aquilo tinha de ter um nome!”, diz Armandinho em mais um dos vídeos de “Made In Bahia”.

Bem, o resto da história você já conhece e os próximos capítulos certamente serão contados pelas mãos do próprio Armandinho, seus irmãos e nos muitos anos de Guitarra Baiana que esperamos por ai!

Bom Carnaval 2015, com muita guitarra!

 

SERVIÇO

Para dar os primeiros passos na história da Guitarra Baiana

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http://pt.guitarra-baiana.com

 

Para saber mais sobre os trabalhos de Armandinho

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