Aprendendo de verdade: o Estudo Eficaz

Olá leitora e leitor, como vai? Espero que bem de verdade.

Ao invés do já habitual recado, quero interromper um pouco meus comentários sobre o isolamento social porque o tema de hoje é bem denso, mas não é por causa disso que vai se esquecer do: #ficaemcasa e #tomecuidado, certo?

Proteja-se e estenda esse cuidado para quem está à sua volta. A gente vai passar por isso, distantes fisicamente, mas sempre juntos emocionalmente.

Venho falado de métodos de ensino, formas de como receber o conhecimento e como escolher os melhores cursos e professores online.

O que faltou falar foi da parte interna, da anatomia do estudo, separar o que funciona e o que parece funcionar.

É sobre isso que nos debruçaremos hoje.

E para tal, como é um tema extenso e cheio de ramificações, contei com a ajuda de pessoas talentosas e com conhecimentos dos mais diversos, as quais já quero apresentar e agradecer nesse início: Raphael Pinheiro, mestre na bateria e professor do Instituto Musical IMKS; Thiago Marques, produtor musical e compositor; e Débora Bolognini, psicóloga e recrutadora.

Antes de começarmos, é interessante explorarmos o conceito de “Ilusão da Inteligência”, de Umberto Eco, muito bem lembrado pelo Raphael Pinheiro.

Ter o livro na prateleira ou salvar o .pdf da partitura, não são indicação de que você sabe ou absorveu tudo o quê ali está.

É muito comum – e você conhece gente que faz ou você mesmo já o fez – que compra algum compêndio de conhecimento (bandscore no nosso mundo musical) e diz que sabe absolutamente tudo após folear e colocar de volta na estante.

Há uma autoilusão numa parte obscura da nossa mente que supõe que o ato de ter materiais por perto faz com que a pessoa se sinta habilitada a discutir aqueles autores com uma desenvoltura, que geralmente, é estabanada e rasa” afirma o supracitado Raphael.

Então, cuidado com esse comportamento.

Explicado esse conceito fundamental, vamos seguir em frente, sempre lembrando que poderá ouvir esse post no formato de podcast no seu agregador preferido. E se for o Spotify, é só clicar na imagem abaixo para ser direcionado bem rapidinho:

Já abordei, em posts anteriores, alguns pontos básicos para um bom estudo: escolher um lugar adequado, separar um tempo exclusivo para o estudo e entender o seu próprio ritmo de aprendizado.

Porém, esses pontos são um tipo de “sabedoria popular”. O que vamos ver à frente será um pouco mais científico.

Temos seis grandes métodos de aprendizado geral listados na literatura específica, mas foquemo-nos nos quatro que trazem melhores resultados para o aprendizado musical, na minha modesta opinião, e que explicarei a seguir.

POMODORO

Apesar de parecer nome de molho de tomate para macarronadas, o italiano Francesco Cirillo desenvolveu esse método na década de 80, ao perceber que havia uma relação benéfica no rendimento de estudos e na sua produtividade quando eram realizadas algumas pausas curtas.

A técnica não define um tempo exato nessa correlação, porém, o mais indicado é o 25/5, sendo 25 minutos de estudo focado e 5 minutos de descanso ou alongamento.

Claro que essa relação não é universal, uma vez que pode variar de pessoa para pessoa. Por isso, sinta-se à vontade para fazer ajustes nessa proporção, contanto que o tempo de descanso não se iguale ao tempo de estudo, testando relações até se adaptar completamente ao método.

Na Música, além de contribuir para absorção do aprendizado, esse método ainda contribui para não gerar tensões musculares desnecessárias.

ROBINSON (ou EPL2R)

Esse método sem sobrenome – poderia ser Crusoé, não? – foi criado em 1946 pelo psicólogo Francis Pleasant Robinson e se baseia em 5 pilares: explorar, perguntar, ler, rememorar e repassar.

Inicia-se, explorando o material a ser estudado com uma leitura superficial de sumários, índices e títulos. Isso levantará indagações, o que leva a segunda parte, onde o estudante fará perguntas a si mesmo sobre o significado de cada um desses títulos ou sobre as dúvidas que já surgirem em uma leitura de resumo.

Com essas perguntas já devidamente formuladas, faz-se a primeira leitura aprofundada, pensando na resolução das perguntas feitas no passo anterior. Respondidas as dúvidas, parte-se para uma leitura tradicional, mais leve e sem pensar na aplicação do conteúdo.

O método finaliza com o estudante aprendendo e organizando esse conhecimento até ser capaz de “dar uma aula” para si mesmo – ou para alguém dos seus amigos que ele julgue se interessar pelo tema.

Aplicado à Música, imagine o primeiro passo com você ouvindo a música ou lendo o tema da partitura.

Segundo: pergunte-se quais partes você terá dificuldades e anote-as. Estude a música e repasse essas partes até aprendê-las. Em seguida, execute-a totalmente sem preocupações e finalize tentando ensinar alguém sobre essa mesma música, nem que seja apenas falando sobre ela.

MAPA MENTAL

Mais uma invenção vinda do hemisfério norte, feita na década de 70 pelo escritor Tony Buzan.

Esse método organiza matérias em um diagrama com setas e cores, elegendo um tema central.

Feito isso, conecta-se o tema com subtemas e tópicos paralelos. Por ser um método bem visual, ele estimula nossa observação.

O mapa pronto faz com que revisões sejam feitas de forma mais rápida e a conexão dos assuntos seja lembrada com mais facilidade.

Exemplificando: imagine-se estudando sobre Escalas Gregorianas. 

Temas paralelos seriam escalas maiores e menores (Harmônicas e Melódicas), Cromatismos, Campos Harmônicos e Intervalos.

Organizando isso como um mapa, fica mais fácil visualizar e retomar o que se tem dificuldade.

SISTEMA LEITNER

Sebastian Leitner desenvolveu esse sistema na Alemanha da década de 70, baseando-se  em caixas que representam a fixação do conteúdo em certos intervalos de tempo.

“Na prática, o aluno coloca todos os cartões com perguntas na caixa 1. Em seguida, pega cada cartão e tenta responder à pergunta. Se acertar a resposta, coloca-o na caixa 2. Se errar, deixa-o na caixa 1. O estudo passa para as caixas seguintes e a premissa permanece. A única diferença é que nas próximas se o estudante errar, deve voltar o cartão para a caixa anterior. Assim, os cartões na primeira caixa são estudados com mais frequência”, ensina Raphael Pinheiro.

“Existe também um intervalo de tempo que deve ser respeitado, para que nosso cérebro de fato aumente as sinapses e traga esses conteúdos de forma mais rápida e sem lacunas de compreensão” comenta Débora Bolognini. “As caixas do Sistema Leitner trabalham normalmente com 1, 3, 5, 7 e 14 dias, porém, é possível redefinir os prazos como diário, semana, mensal e trimestral”.

Pensando nas questões musicais, em uma apostila com 10 exercícios, o estudante deve sempre seguir à diante, independente de perfeição no exercício, mas deve marcar os que ficaram aquém de boa execução e retomar a prática desses primeiros, na próxima seção de estudo.

Os outros dois métodos são Teste Prático e Autoexplicação. No caso de conhecimentos mais teóricos, eles podem ser de grande valia.

Focando na Música, temos um método mais atual e moderno:

GRAVAÇÃO

Usando a tecnologia a seu favor, você pode gravar os conteúdos que mais tem dificuldade, mesmo que com erros.

A partir da gravação, você consegue aplicar um mix dos métodos acima.

Ouça novamente o conteúdo, identifique as partes que precisa revisar e questione se as outras partes ficaram boas. Repasse e melhore o que precisar. Toque tudo novamente com mais tranquilidade.

Se tudo estiver certo, retome em até 24 horas gravando novamente, e entendendo sua fixação do conteúdo.

Exemplo básico: Sobe escala de C maior, desce escala de D menor harmônica e assim por diante no campo harmônico de C – está aí um desafio para essa quarentena, quando sobra mais tempo em casa para estudar.

Gravando e ouvindo, você entenderá quais escalas precisa repassar, quais técnicas ajustar e outros pormenores para deixar tudo mais fluido.

Tendo em vista todos esses métodos, precisamos pensar também no como funciona aprender e como nossa memória age nesses momentos.

Para isso, o Raphael Pinheiro detalha ainda mais a sua pesquisa nesse tema:

A nossa memória é separada em memória de trabalho que é como um quadro-negro que precisa ser apagado toda vez que chega ao fim (curto prazo) e a memória de longo prazo é um grande depósito. Diferentes tipos de memória de longo prazo estão localizados em diferentes regiões do cérebro.

As pesquisas mostram que, ao inserir pela primeira vez algo na memória a longo prazo, precisamos de mais repetições para aumentar as chances de que o conceito continue a ser armazenado e possa ser recuperado.

As memórias de longo prazo exigem exercício permanente até que se torne automática.

Quando você faz um exercício pela primeira vez, o seu cérebro gera uma determinada quantidade de conexões de qualidade limitada. No entanto se você não retomar esses exercícios em breve, num prazo curto as conexões se apagam.

Barbara Oakley, no livro Aprendendo a Aprender, brinca com a ideia de ‘vampiros metabólicos’: a memória de trabalho é a parte que tem a ver com o que você está processando imediata e conscientemente no cérebro.

 Costumava-se pensar que nossa memória de trabalho poderia conter cerca de sete itens, ou ‘pedaços’, mas agora acredita-se amplamente que a memória de trabalho contém apenas cerca de quatro pedaços de informação.

Como tendemos a agrupar automaticamente itens de memória em partes, parece que nossa memória de trabalho é maior do que realmente é.

Você pode pensar na memória de trabalho como o equivalente mental de um malabarista. Os quatro itens só ficam no ar – ou na memória de trabalho – porque você continua adicionando um pouco de energia.

Essa energia é necessária para que seus vampiros metabólicos – processos naturais de dissipação – não suguem as memórias.

Em outras palavras, você precisa manter essas memórias ativamente; caso contrário, seu corpo desviará sua energia para outro lugar e você esquecerá as informações que recebeu.

Ainda hoje, a ‘curva do esquecimento’ continua sendo um fator importante a ser considerado quando se estuda.

Essencialmente, ela diz que a primeira vez que você ouve uma aula ou estuda algo novo, sua chance de retenção melhora em até 80% caso você reveja o conteúdo nas próximas 24 horas.

E isso é cumulativo: depois de uma semana, você terá capacidade de reter 100% das mesmas informações após apenas cinco minutos de estudo.

Para otimizar seu tempo, aproxime-o mais do dia em que você teve contato com o material do que do dia da prova.

Os professores obtêm essa vantagem no aprendizado, pois além de precisarem estudar o conteúdo, acabam aplicando parte do método Robinson ao ensinar para os alunos.

Unindo as informações, método de ensino, método de estudo, memória, local, bons professores e foco, é possível extrair o melhor na hora de aprender.

Há ainda mais dois fatores extras no aprendizado musical que você entenderá a seguir com a história do Thiago Marques:

Tive a oportunidade de iniciar meus estudos musicais aos 5 anos de idade, o que para mim era algo muito gratificante já que a Música já fazia parte das minhas brincadeiras e da minha diversão.

Naquele momento, por mais novo que fosse e por mais que crianças, em geral, não costumam ser fãs de deveres de casa, meu motivador principal era o gosto pela música, eu realmente apreciava do que estava fazendo.

Por volta dos 12/13 anos de idade após algum tempo sem aulas formais, procurei por conta própria um professor para continuar meus estudos.

Desta vez, além pelo gosto pela Música, havia mais um motivador, a vontade de me desenvolver e poder tocar bem, juntamente com outras pessoas e formar uma banda.

Assim o fiz, segui estudando por alguns anos com outro professor, que além do conteúdo teórico/prático, me estimulava a seguir um calendário onde anotava as horas diárias de estudo e os tópicos que havia praticado.

Comecei aí a adquirir mais disciplina e a tentar fazer meus períodos de estudo renderem o quanto mais.

Perto dos 18 anos, já tinha em mente que queria cursar a Faculdade de Música, nesta época passei a estudar com outro professor e ao mesmo tempo fazer um curso extra que ajudava na preparação para a prova específica do curso de graduação, ou seja, acrescentei neste momento outro motivador.

Estudava todo o material possível em todo o tempo possível que tinha, pois meu objetivo era claro.

Durante a faculdade, comecei também a trabalhar como professor de Música e neste momento conheci o outro lado, o ponto de vista do docente.

Juntamente com isso veio um novo desafio: como manter o aluno interessado e motivá-lo a manter o seu estudo eficaz em casa.

A resposta já estava pronta no meu próprio trajeto de estudante: O Objetivo.

É muito importante saber identificar a razão, o ponto focal da motivação ao estudar qualquer área do conhecimento e o desenvolvimento musical não é diferente, é importantíssimo ter claro para si mesmo o porquê do seu esforço e dedicação, principalmente quando este esforço, dedicação e consumo de tempo são levadas ao que chamamos de ‘alto desempenho’.

Manter a disciplina e o nível prático demandam muito do tempo, da mente e inclusive do corpo. Por isso, objetivos claros são fundamentais para a eficácia do estudo musical.

Aqui ressalto um paralelo importante, na Música, ou nas artes em geral: não creio que o “estudo pelo estudo” seja um bom objetivo, uma busca de evolução técnica por si só não forma um alvo interessante do ponto de vista artístico, musical e criativo.

A Música está aí para nos expressarmos, para criarmos, para nos comunicarmos, e dificilmente isso poderá ser feito apenas com repetições de exercícios, sem sentido fora do campo do estudo musical.

Além da motivação, a criatividade é a chave para tornarmos horas e mais horas de estudo em música e arte.

Segundo John Cleese, ator, escritor, comediante e produtor inglês, famoso internacionalmente por sua obra com ‘Monthy Python’, a chave para a criatividade e para as soluções mais criativas (que é justamente o que buscamos na composição de uma música, um solo, um timbre), não está no Q.I. e nem mesmo unicamente no talento, mas na capacidade em abstrair o tempo, o espaço, as regras, os sentidos e, se possível não se preocupar com o horário, se deixar levar e apenas brincar.

Assim como faria uma criança no começo de toda essa jornada.”

Objetivo e sentimento.

Some aos tópicos e você terá um aprendizado 360°, onde entenderá e absorverá o conhecimento com a mente e com o coração, pois a Música é isso: uma junção do real e do imaginário.

E estendo isso para qualquer coisa que você queira aprender.

Finalizando, espero que esse micro guia ajude-o à seguir aprendendo de maneira mais eficiente e produtiva, além de ainda mais prazerosa.

Agora diz para mim: Já utilizou algum desses métodos? Como você costuma fazer com que seu aprendizado seja eficaz?

Compartilhe suas experiências com a gente, seja aqui no blog, seja nas redes sociais da SANTO ANGELO, para seguirmos adicionando mais e mais conhecimento no nosso cérebro e ao nosso queridíssimo mundo da Música.

Ótimos aprendizados musicais até o nosso próximo encontro.

Grande abraço!

 

 

Dan Souza (IG: @danhisa) é músico e profissional de Marketing, Relações Artísticas, Branded Content e Music Business, formado pela UNINOVE.

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