Guitarras Icônicas – Brian May: “Red Special”

Links - Brian May guitarra

Por Dr. Alexandre Berni

Olá pessoal! Para quem gostou do meu post anterior sobre a guitarra icônica de Eddie Van Halen (clique aqui caso não tenha visto), hoje falarei sobre mais uma das guitarras icônicas, especialmente preparada por um dos guitarristas que mais admiro e que certamente faz parte da história mundial do rock.

Assim como disse no post anterior, a associação da imagem desta guitarra ao seu criador é prontamente estabelecida pela sua importância na história do rock e por apresentar um formato único e exclusivo. Este músico incrível – Brian May, ao lado de um vocalista igualmente incrível, Freddy Mercury, fundaram uma das mais influentes bandas de todos os tempos, o “Queen”. Seu estilo e timbre servem de referências para muitos guitarristas até os dias atuais.

Você é muito jovem e nunca tinha ouvido falar do Queen?

Pode ser e por isso vamos nos reportar a história de Brian May para entendermos porque consideramos sua guitarra icônica. Aos 6 anos de idade,  Brian começou a tocar Ukelele e, em seguida, ganhou uma guitarra acústica, mas o som dela não o agradava. Por volta de 1958, Brian, então com 11 anos, via seus amigos comprando guitarras elétricas das marcas Gibson e Fender, mas ele não tinha dinheiro para comprá-las. Já ouviu essa história antes?

É nesse ponto que eu gostaria de chamar a atenção de vocês sobre o assunto abordado recentemente aqui no blog: inovação (veja aqui). Imagine se Brian May se conformasse com essa situação, falasse mal do governo do seu país e deixasse para tocar guitarra quando Deus quisesse. Não mesmo e este é um dos lados do caráter desse músico que mais eu admiro: ele quis fazer diferente. Pense nisso e continue lendo.

Brian e seu pai – engenheiro eletrônico, resolveram então construir eles mesmos uma guitarra, seguindo as orientações de Brian, que sabia muito bem o que desejava em um instrumento. Em 1963, iniciou o projeto e protótipo da guitarra em um pequeno dormitório de sua casa que virou oficina. Entre 1966 e 1967, Brian e seu pai já tinham a primeira versão da “Red Special”, guitarra que Brian May usa até os dias atuais, batizando-a de “Old Lady”.

Red Special - Brian May

Quanto ao “shape” do instrumento em si, podemos dizer que Brian achava que os modelos da época (anos 60) tinham certa falta de propósito em seus formatos. Seu desenho inicial para a “Red Special” tinha como objetivo a acústica perfeita acima de tudo. Como matéria-prima, utilizaram inicialmente uma chaminé de madeira (na verdade de mogno) que um amigo de Brian lhe deu, esculpindo-a com um estilete até encontrar a forma certa.

Surpreso com o uso de material reciclado? Prepare-se para o que vem a seguir.

O corpo da guitarra foi feito com duas camadas de compensado sarrafeado de 18 mm, com dois núcleos em carvalho de uma mesa sem uso. Assim, o que distingue a “Red Special” das demais guitarras da época, são as cavidades internas, feitas para se obter feedback de maneira controlada. Brian decidiu fazer essas cavidades, pois quando começou a aprender tocar guitarra, percebeu que os formatos “hollow-body” (com corpo oco) possuíam mais feedback que as guitarras comuns de corpo sólido. Portanto a “Red Special” é uma guitarra do tipo semi-sólido, que você pode relembrar relendo um dos meus posts mais antigos (clique aqui para ver o post).

Brian May 4

O braço da “Red Special” é grosso e baseado em um braço de violão, sendo afixado ao corpo da guitarra com apenas um parafuso grande e dois pequenos parafusos internos, sob o escudo. Essa construção derruba assim o mito de que a fixação na forma citada não proporciona tanto “Sustain” quanto aos braços colados ou inteiriços. Para construir o braço, foi utilizada a mesma madeira (mogno) da lareira descrita anteriormente. A escala de 25 trastes, sendo um traste zero, algo inovador na época, foi confeccionada de carvalho da mesma mesa que também já comentamos, e pintada de preto por Brian para parecer Ébano Africano. Ainda mais curiosas foram as marcações, feitas com botões da caixa de costura da mãe do músico. Mas as improvisações, que hoje chamaríamos de “gambiarras”, ainda não terminaram. Continue lendo.

A ponte e o trêmolo foram confeccionados com peças de cozinha, como uma faca e molas de motocicletas. Não devemos esquecer da agulha de tricô que acabou servindo como alavanca. O escudo foi feito de um material preto chamado perspex, semelhante ao acrílico, e os botões de volume foram usinados em um torno que havia na escola de Brian.

E os captadores? Eles também foram inventados pela dupla?

Quanto aos captadores, o próprio Brian e seu pai tentaram sem sucesso fazer os primeiros, mas foram logo substituídos por três single-coils da marca “Burns”, que, na época, eram os únicos disponíveis separadamente no mercado. Um detalhe essencial é que eles são ligados em série, há uma chave liga/desliga e outra que inverte a fase para cada captador, num total de seis chaves, com volume e tonalidade “master”.

O timbre mais utilizado por ele é o de duas bobinas com fases invertidas que proporciona efeito de “humbucking”. Ao utilizar os três pick-ups simultaneamente, perde-se tal efeito. Por isso, dificilmente ele utiliza essa configuração. Certamente, ele também tinha que ser diferente na parte elétrica com tanta genialidade que possuía junto ao seu pai. Segundo “reza a lenda”, esta obra-prima da reciclagem não atingiu 8 libras ( R$ 40 reais ).

Todos os discos de sua banda foram gravados com esta guitarra, assim como centenas de shows pelo mundo. Não era de se estranhar, entretanto, que a guitarra necessitasse de manutenção constante, além de tarraxas e trastes mais resistentes. Décadas de uso contínuo e constantes alterações radicais de temperatura haviam comprometido seriamente a estrutura do instrumento.

Brian May tocando a red special com o queen

Assim, a grande questão era: a quem Brian confiaria sua guitarra?

Brian May Greg Fryer

Em 1998, a “Red Special” passou por uma extensa reforma realizada pelo luthier australiano Greg Fryer, ele utilizou os mesmos materiais originais da “Red Special” e construiu três exemplares idênticos para o próprio Brian usar, batizadas agora com os nomes de John, Paul e George, em referência aos célebres guitarristas e baixista dos Beatles. Além dele, muitos luthiers e músicos replicaram o modelo da guitarra mundo afora.  Na Europa, existem até encontros regulares de proprietários destas réplicas.

Brian May Greg guitars

Uma loja online chamada “Brian May Guitars” produziu diversos modelos interessantes e alusivos à guitarra histórica, porém com sistema diferente de captação, além de usar outros tipos de ponte e tremolo. Vale à pena lembrar que a “Guild” também produziu réplicas dessa guitarra, tanto para Brian quanto para o mercado mundial.

Para quem quiser saber mais detalhes, neste link (clique aqui para ver) está documentado a restauração da guitarra de Brian.

Em outubro de 2014, Brian lançou mais um livro, desta vez contando a história de sua guitarra com os desenhos originais e muitos detalhes. Eu ainda não tive a oportunidade de adquirir um exemplar, e se você leitor ou leitora tenha conseguido, considere seriamente a ideia de contribuir com mais comentários sobre essa guitarra icônica e seu músico excepcional.

Vale à pena lembrar que Brian May também já lançou livros inclusive na área da Astrofísica, uma vez que tem uma carreira acadêmica conceituada.

Alguém consegue imaginar que pai e filho em um pequeno quarto, com poucos recursos, ao construir uma guitarra artesanal iriam mudar substancialmente os rumos do rock sendo referência até os dias atuais? E muitos “músicos” hoje em dia dizem que precisam de equipamentos cada vez mais sofisticados para mostrarem seu trabalho. Cabe aqui uma reflexão sincera sobre nossos objetos de desejo e o que podemos contribuir de bom para o mundo.

Como sempre, aguardo comentários de todos sobre outras guitarras que também consideram icônicas para aprendermos e evoluirmos juntos.

Grande abraço e até a próxima!