Guitarras Icônicas – Eric Clapton: “Blackie”

Links - Blackie 31-08-15

Por Dr. Alexandre Berni

Olá, pessoal!

Curiosos para saber qual o músico e sua guitarra icônica de hoje? Para quem está chegando agora e não sabe do que estou falando, recomendo a leitura dos meus posts anteriores, principalmente aquele de Jimi Hendrix, entre outros, que já somam mais de 1.300 compartilhamentos nas redes sociais. Hoje abordarei sobre um guitarrista que até já foi chamado de “Deus” por muitos fanáticos pelo seu trabalho. Acertou quem pensou em Eric Clapton e quais das suas guitarras escolhi como icônica.

Exemplo de resiliência “Clapton construiu uma carreira meteórica; fez sucesso de público e crítica; namorou a mulher do melhor amigo; se afundou nas drogas; deu a volta por cima; ampliou o seu público mais ainda; afundou no álcool; se tratou para poder criar o filho; o filho morreu em um acidente; manteve-se sóbrio; fez mais sucesso ainda; e mantém-se como um músico respeitado, excursionando constantemente pela Europa, Japão e Estados Unidos.” (1). Vamos a história!

Clapton nasceu em Ripley, na Inglaterra, criado pelos avós, Rose e Jack. Eram tempos conturbados da história mundial, devido à 2ª. Grande Guerra Mundial, quando o sul da Inglaterra fora ocupado por tropas americanas e canadenses. Eric é fruto de um breve relacionamento de Patrícia, que acreditava ser sua irmã mais velha, que aos 15 anos conheceu Eduardo Fryer, um aviador canadense de passagem pela cidade servindo ao seu país. Em 1945, Clapton nasceu “em segredo” na casa onde foi criado pelos avós como filho. Acreditou que seus avós eram seus pais até aos nove anos de idade.

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O transtorno psicológico não foi pequeno após descobrir a verdade sobre seus verdadeiros pais. Deixou de se aplicar na escola e se tornou um garoto calado, tímido, solitário e distante da família. Seu primeiro emprego foi como carteiro e, aos 13 anos de idade, ganhou o primeiro violão, presente de sua avó Rose (2) Apesar da dificuldade inicial de aprender a tocar o instrumento, antes de desistir e motivado por canções antigas de blues que tentava reproduzir, esforçou-se mais para tocar os primeiros acordes. Em pouco tempo, já dedicava horas diárias ao aprendizado e foi conseguindo dominar o instrumento. Vale a pena lembrar que seu primeiro contato com a música foi através de uma flauta doce.

Ao completar o ensino básico, em 1962, Clapton fez um ano introdutório na Kingston School of Art, mas não concluiu o curso. Em janeiro de 1963, indicado por uma colega do curso e namorada do guitarrista Tom McGuinness, ingressou na banda “The Roosters”. Os ensaios eram no andar de cima de um bar e a guitarra, o teclado e o vocal plugados no mesmo amplificador, pois não tinham muitos recursos. Chegaram a fazer algumas apresentações e Eric permaneceu na banda até agosto do mesmo ano.

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Em 1963, passou a integrar a banda “Yardbirds”, que já fazia sucesso na Grã-Bretanha. O empresário da banda e grande entusiasta do blues chamava-se Giorgio Gomelsky, que tinha aberto um lugar chamado CrawDaddy Club, no velho Station Hotel, em Richmond. A banda que tocava no local nas noites de domingo era a recém-formada “Rolling Stones”. Neste local foi que Eric conheceu Mick, Keith e Brian em seu período gestacional dos Rolling Stones.

Com o passar do tempo, os “Yardbirds” foram alternando seu estilo para o ritmo pop, o que desagradava Eric. Sendo assim, fiel às suas raízes no blues, recusou-se a seguir a direção escolhida pelo grupo e acabou saindo em março de 1965. Após a saída de Clapton, a banda ainda “empregou” mais dois grandes guitarristas: primeiro Jeff Beck e depois Jimmy Page. Após um tempo em empregos temporários, Eric entrou para a “John Mayall & the Bluesbreakers”, estabelecendo seu nome como músico de blues e inspirando o fanatismo de jovens que pixavam toda Londres com a inscrição “Clapton is God” (“Clapton é Deus”).

Eric Clapton - imagem 1

Ele largou os Bluesbreakers em 1966 e então formou o “Cream” (nome designado por Eric), um dos primeiros “power trios” do Rock, com seus amigos Jack Bruce e Ginger Baker. Eram amigos de festas, nas quais era comum que todos bebessem e consumissem quantidades maciças de drogas, enquanto escutavam sons de blues. Clapton e esses amigos se tornaram tão próximos que resolveram entre si formar um grupo e tocar juntos, já que tinham os gostos semelhantes. Foi nessa época que Eric começou a desenvolver-se como cantor, embora Bruce fizesse a maioria dos vocais.

No final de 1966, o status de Clapton como melhor guitarrista da Grã-Bretanha foi abalado com a chegada de Jimi Hendrix. O guitarrista norte-americano compareceu a uma das primeiras apresentações do “Cream”, no London Polytechnic, em 1 de outubro de 1966, e tocou uma “jam” com a banda durante “Killing Floor”. Foi quando o líder de “Cream” ficou chocado ao ver as extrovertidas e irreverentes brincadeiras que Jimi fazia durante a apresentação. Nunca havia visto algo parecido. Os primeiros shows de Hendrix no Reino Unido foram assistidos pela maioria dos astros da música britânica, incluindo Clapton, Pete Townshend e os integrantes dos Beatles. A chegada de Jimi teria um impacto profundo e imediato na próxima etapa da carreira de Clapton. O público só pensava no recém-chegado americano Hendrix.

As lendárias brigas internas da banda “Cream” – especialmente entre Bruce e Baker – aumentaram a tensão entre os três integrantes, levando ao fim da banda. Outro fator significante para a dissolução da banda foi uma crítica pesada da revista Rolling Stone a um dos shows do Cream, o que afetou Clapton profundamente. “Goodbye”, álbum de despedida do trio, apresentava faixas ao vivo gravadas no Royal Albert Hall, assim como a versão de estúdio de “Badge”, composta por Eric e George Harrison.

A amizade próxima de Eric e George Harrison resultou na performance de Clapton em “While My Guitar Gently Weeps”, lançada no White Album dos Beatles. Ao acompanhar de perto o sofrimento da esposa de Harrison, Pattie Boyd, que vivia abandonada em razão do interesse do marido pela cultura hindu, Eric acabou se apaixonando, e seu sofrimento por amar a mulher de seu melhor amigo o inspiraria a compor uma das suas canções mais conhecidas: “Layla”.

Eric Clapton - imagem 2Patricia Anne “Pattie” Boyd – Musa de Harrison e Clapton

Uma segunda participação em outro super grupo, o “Blind Faith” (1969), com Baker, Steve Winwood e Rick Grech, resultou em um álbum e turnê norte-americana. Neste momento, Clapton decidiu ficar um pouco nas sombra, passando a viajar como convidado do grupo “Delaney and Bonnie and Friends”. Ele se tornou amigo íntimo de Delaney Bramlett, que o encorajou a voltar a compor e a cantar.

Usando a banda de apoio de Bramletts e um elenco estelar de músicos de estúdio, Clapton lançou seu primeiro disco solo em 1970, que trazia uma de suas melhores composições: “Let It Rain”.

Apropriando-se da seção rítmica do Delaney & Bonnie – Bobby Whitlock (teclado, vocais), Carl Radle (baixo) e Jim Gordon (bateria) – ele formou uma nova banda com a intenção de contrastar com o culto de “estrelismo” que crescera a sua volta e mostrar Clapton como um integrante no mesmo patamar dos demais. Isto tornou-se ainda mais evidente com a escolha do nome: “Derek and the Dominos”, que veio de uma piada nos bastidores do primeiro show da banda.

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Trabalhando no Criterion Studios em Miami com o produtor Tom Dowd, a banda gravou um brilhante álbum duplo, hoje em dia considerado como a obra-prima de Clapton: Layla and Other Assorted Love Songs. A maioria do material, incluindo a faixa título, foi inspirado pelo conto árabe “Majnun e Layla”, uma metáfora do grande amor não declarado de Clapton por Patti Harrison. “Layla” foi gravada em duas sessões distintas: a de abertura, com a guitarra gravada primeiro, e a segunda, quando o baterista Jim Gordon compôs e tocou o elegante trecho ao piano.

Clapton ficou devastado com a notícia da morte de Jimi Hendrix e a banda gravou uma versão tocante de “Little Wing” como um tributo a ele, adicionando-a ao álbum. Um ano depois, Duane Allman morreu em um acidente de motocicleta. Contribuindo mais para o sofrimento de Clapton, o álbum Layla receberia somente algumas poucas críticas neutras.

O esfacelado grupo resolveu iniciar uma turnê norte-americana. Apesar da admissão posterior de Clapton de que a turnê ocorreu em meio a uma verdadeira orgia de drogas e álcool, aquilo acabou resultando em um poderoso álbum ao vivo, o “In Concert”. Mas o grupo se desintegraria pouco tempo depois em Londres, na véspera da gravação de seu segundo LP de estúdio. Embora Radle tenha continuado a trabalhar com Clapton por vários anos, a briga entre Eric e Bobby Whitlock foi aparentemente feia, e eles nunca mais voltariam a tocar juntos. Outra trágica nota de rodapé para a história do “Dominos”, foi o destino de seu baterista Jim Gordon, que sofria de esquizofrenia não-diagnosticada. Anos depois, durante um surto psicótico, ele mataria a própria mãe a marretadas, sendo confinado em um hospício.

Apesar do sucesso, a vida pessoal de Clapton encontrava-se em estado deplorável. Além de sua paixão por Pattie Boyd Harrison, ele parou de tocar e se apresentar e se tornou viciado em heroína, custando um hiato em sua carreira. A única interrupção notável desse período foi sua participação no Concerto para Bangladesh – organizado por George Harrison – e depois no “Rainbow Concert”, organizado por Pete Townshend, do “The Who”, para ajudar Clapton a largar as drogas.

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Relativamente limpo novamente, Clapton começou a organizar uma nova e forte banda, que incluía Radle, o guitarrista George Terry, o baterista Jamie Oldaker e as backing vocals Yvonne Elliman e Marcy Levy. Eles viajaram em turnê ao redor do mundo, posteriormente lançando o soberbo E.C. Was Here (1975).

Clapton lançou “461 Ocean Boulevard” em 1974, álbum mais enfatizado nas canções ao invés de sua técnica na guitarra. Sua versão de “I Shot The Sheriff” foi um grande sucesso. Eric continuou a gravar e a fazer turnês regulares, mas a maioria de seu trabalho desta época foi deliberadamente mais calmo, fracassando em obter a mesma repercussão do início de sua carreira.

Em 1976, Clapton foi o centro de polêmicas devido a acusações de racismo, ao protestar contra a imigração crescente durante um show em Birmingham, Inglaterra. Clapton disse que “o país estava se tornando superpopuloso” e implorou para que a plateia votasse em Enoch Powell para impedir que a Grã-Bretanha virasse uma “colônia negra”. Seus comentários motivariam diretamente a criação do evento “Rock Against Racism”.

Anos mais tarde, em sua autobiografia, Clapton afirma não se lembrar desse episódio e cogitou estar sob influência de drogas ou bebida durante a declaração, dizendo que não faria sentido que fosse racista porque,  afinal, todos os seus grandes ídolos eram negros. Nesta mesma época, seu nome começou a aparecer em álbuns lançados no Japão como “Eric Crapton” (“Crap” significa fezes, em inglês), embora isso seja provavelmente mais um caso de “engrish” do que de malevolência.

O final dos anos 70 viu um Clapton com dificuldades de se acertar com a música popular, causando uma recaída no alcoolismo. Hospitalizado e depois internado para um período de convalescença em Antígua, Clapton mais tarde apoiaria a criação de um centro de reabilitação existente até hoje, chamado Crossroads Center. Para arrecadar fundos, ele criou um evento chamado “Crossroads Guitar Festival”, para contribuir com o tratamento dos dependentes de drogas naquele centro.

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Em 1985, Clapton conheceu Yvone Khan Kelly, com quem teve uma filha, Ruth, nascida no mesmo ano. Clapton se divorciou três anos depois do casamento.

No começo dos 1990, a tragédia voltaria a atormentar a vida de Clapton em duas ocasiões. No dia 27 de agosto de 1990, o guitarrista Stevie Ray Vaughan, que estava em turnê com Eric e dois membros de sua equipe de apoio morreram em um acidente de helicóptero. Eu já contei isso no post sobre SRV, que você pode saber mais clicando aqui. No ano seguinte, em 20 de março de 1991, Conor, filho de quatro anos de Clapton com a modelo italiana Lori Del Santo, morreu depois de cair da janela de um apartamento em Nova York. Um instantâneo da dor de Clapton pôde ser visto com a canção “Tears In Heaven”, e posteriormente nas canções “My Father’s Eyes” (Pilgrim, 1998) e “Circus Left Town” (Pilgrim, 1998).

Assim como “MTV Unplugged” (vencedor do Grammy em 1993), seu álbum “From The Cradle” trazia várias versões de antigos sucessos do blues, dando destaque a seu estilo econômico no violão. Em 1997, ele gravou um álbum de música eletrônica sob o pseudônimo de TDF, “Retail Therapy”, terminando o século XX com aclamadas parcerias com Carlos Santana e B. B. King.

Em 1999, Clapton, então com 54 anos, conheceu a artista gráfica Melia McEnery, 25, em Los Angeles, enquanto trabalhava em um álbum com B. B. King. Eles se casaram em 2002 e tiveram três filhas, Julia Rose (2001), Ella May (2003) e Sophie, nascida em 2005.

Se quiser saber ainda mais sobre os dramas e sucessos deste grande artista, pode procurar ler as várias biografias que já foram escritas sobre ele, mas sobre suas guitarras só aqui no blog da SANTO ANGELO. Eu recomendo este livro, autobiográfico, publicado em outubro de 2007: “Clapton: the autobiography” (editado em 12 idiomas).

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Em 3 de novembro de 2004, Clapton foi condecorado com o título de Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE).

Voltando às guitarras, no começo de sua carreira, Clapton usava uma Gibson Les Paul do final dos anos 1970, sendo parcialmente responsável pela reintrodução do estilo original da Les Paul pela Gibson.

Mais tarde, começou a usar Stratocaster’s da Fender. A mais famosa de todas as suas guitarras foi a “Blackie”, montada com pedaços de três Stratocasters que ele havia comprado por $100,00 cada e que ele usou até os anos 1990. Por receio de danificá-la, guardou-a em casa e não a levou mais aos palcos. Por fim, Clapton se desfez da “Blackie”, nome que ele criou por U$959,500 no leilão organizado pela Christie’s de Nova York, em benefício do centro de reabilitação “Crossroads”.

E não parou por aí. Em 1999, Clapton levou a leilão parte de sua coleção de guitarras e o montante conseguido no leilão pela Christie’s foi de U$7,438,624.00 com 88 itens pessoais que ele disponibilizou.

Foram construídas pela Fender apenas 185 réplicas da Blackie, com “tiragem limitada”, reproduzindo todos os mínimos detalhes do “desgaste” ou “relic” de 15 anos de uso do instrumento por Eric Clapton, e até mesmo marcas feitas por cigarros no braço da guitarra.

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Em 1988, Clapton foi honrado novamente pela Fender com a introdução de uma Stratocaster feita sob medida para ele, juntamente com Yngwie Malmsteen. Aquelas foram as primeiras guitarras modeladas para artistas na famosa série “Signature” da Stratocaster, que desde então incluiu modelos para Jeff Beck, Buddy Guy, Stevie Ray Vaughan, entre outros.

Suas guitarras “Signature” não possuem grandes modificações ou adaptações, apresentando circuito eletrónico com intensificação dos médios e captadores Noiseless ou Lace Sensor. Estas guitarras são fabricadas pela Fender até hoje.

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Em 1997, Eric, entuasiasmado com as manifestações artísticas de rua na pintura de muros, apareceu na premiação do Grammy em Nova York  com uma guitarra homenagiando estes artistas. Entretanto, não foram sucessos de vendas Fender. Se você quiser uma dessas, terá que comprar uma original usada ou encomendar a pintura customizada, como da paulista MusicKolor.

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Vale a pena lembrar que por volta de 1967, Clapton também usava uma Gibson SG customizada, entretanto não houve interesse na produção em série pela Gibson, apenas fizeram uma série limitada da Les Paul 1960 Eric Clapton.

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Bem pessoal, este é mais um grande ícone da guitarra que, assim como alguns outros que postei aqui no blog, teve uma vida conturbada, mas que vencendo todas as dificuldades, tornou-se conhecido mundialmente. Além de talento, ele contou com a ajuda de muitos amigos. Quantos guitarristas vocês conhecem que levaram a leilão parte de sua coleção de guitarras em prol de uma causa nobre para ajudar outras pessoas?

E qual será a minha próxima escolha de guitarra icônica? Fique atento ao blog que semana que vem voltamos a conversar.

Abraço forte!

(1): https://hqrock.wordpress.com/2015/03/30/eric-clapton-deus-da-guitarra-faz-70-anos/

(2): http://infograficos.estadao.com.br/public/especiais/eric-clapton-70-anos/