Hein?! Que?

por Dr. SANTO ANGELO – Alexandre Augusto Berni

Hein?! Que?

Hoje vamos deixar de lado nossos posts sobre “saúde” das guitarras e vamos abordar um tema relativo à saúde de todos nós, seres humanos. Aliás, nada adianta você acumular os melhores instrumentos e equipamentos mundiais de não puder ouvi-los.

Em outras palavras, não é de hoje que os guitarristas buscam por timbres que os agradem, investem em guitarras, cabos, amplificadores, pedais e uma infinidade de acessórios de boa qualidade que são necessários para alcançarem seus objetivos. Horas e horas de estudos são necessárias também, mas não exaurem apenas músculos e tendões do corpo. Muitos se esquecem do principal órgão que faz a comunicação entre o timbre que você está produzindo e a interpretação efetivada pelo cérebro.

Eu apresento a vocês o OUVIDO.

No passado as pessoas viviam dentro dos ônibus, metros, filas e salas de esperas sempre lendo livros, jornais ou revistas. Hoje em dia observamos indivíduos com fones de ouvidos com volumes elevadíssimos. E olhem que não vamos entrar no quesito Qualidade desses equipamentos. Como vocês sabem, nível auditivo do som é chamado de SPL (Sound Pressure Level) – ou Nível de Pressão Sonora, sendo medido em Decibéis (dB). O interessante dessa medida é ser uma escala logarítmica e não linear como são conhecidas as principais medidas. Por exemplo: o dobro da velocidade de 30km/h é 60km/h. certo? Pois em decibéis, para dobrar o SPL percebido em 85dB é preciso dobrar também o numero de equipamentos ligados para conseguir um SPL de 88dB.

A exposição a pressões sonoras acima de 90 decibéis por períodos prolongados nos ocasiona perdas auditivas irreversíveis. Esta é uma grande preocupação, por exemplo, da Medicina do Trabalho na regulação de para ambientes fabris e administrativos nas empresas. Para vocês terem uma idéia de quanto esse assunto é sério no meio fabril, aqui na SANTO ANGELO existem setores que o ruído produzido pelas maquinas está ao redor dos 85dB. Por causa disso e cumprindo a legislação, efetuamos anualmente testes audiométricos em todos os nossos empregados, quer eles estejam naqueles setores, quer estejam nas áreas administrativas.

E você? Já fez alguma avaliação auditiva ou está em dia com seus testes audiométricos?

Outro fato importante que devemos considerar é que a perda auditiva é cumulativa e irreversível, ou seja, ela vai se acumulando, aos pouquinhos no decorrer do tempo e não tem como ser revertida. Uma vez perdida, perdida está.

Particularmente, eu sou um exemplo clássico de perda auditiva. Infelizmente, desde a minha adolescência fui exposto a grandes pressões sonoras sem proteção como tocar bateria e guitarra. Isto me ocasionou a perda auditiva irreversível para algumas determinadas frequências. Por isso, é importantíssimo, para minha saúde auditiva, investir em fones de qualidade e atualmente utilizo um fone de ouvido, feito sob medida, que me isola do som ou ruído do ambiente externo, proporcionando maior conforto e melhor controle do volume que irei escutar.

Fone de ouvido feito sob medida

Voltando aos músicos, o problema é conhecido como PAIR – Perda Auditiva Induzida por Ruído, que é uma doença crônica e irreversível da audição causada pela agressão às células ciliadas do órgão de Corti, decorrente da exposição sistemática e prolongada a ruídos intensos. Quem tiver interesse e quiser se aprofundar na fisiologia da Audição, sugiro a leitura desse excelente link:

http://www.forl.org.br/pdf/seminarios/seminario_28.pdf

Veja um exemplo pratico: coloquei um decibelímetro (aparelho que mede o SPL) na frente do meu amplificador, tocando a um volume agradável para mim e com distorção em meu estúdio. O aparelho está marcando 107 decibéis. Ou seja, minha saúde já está muito afetada, se compararmos a de um adulto da minha idade.

Decibelímetro marcando 107 dB

Muitas pesquisas já foram realizadas e, resumindo, cerca de 70% dos músicos já relataram vários sintomas relacionados a alteração da saúde auditiva (plenitude auricular, zumbido, tontura e dor de cabeça). E, mais grave, 40% já relataram sentir dificuldades em ouvir principalmente quando existe muito ruído de fundo no ambiente.

Pesquisas apontam que 40% dos músicos não tem informação sobre os efeitos auditivos que a exposição a sons intensos pode causar, e os que têm conhecimento, não tomam os devidos cuidados para adquirir medidas de prevenção à saúde auditiva.

Todos os músicos deveriam fazer exames periódicos, como aqueles que a SANTO ANGELO realiza com seus empregados, para verificar o nível de audição, pois para eles é fundamental uma integridade auditiva para um bom desempenho de suas habilidades auditivas. Ou seja, somente a educação e a conscientização dos músicos sobre os programas de prevenção e conservação auditiva poderão proteger um dos órgãos mais importantes para o desempenho profissional e social da profissão. Para citar um exemplo, na Alemanha a educação em saúde auditiva é muito bem difundida.

Um estudo profundo sobre avaliação dos níveis de pressão sonora aos quais os músicos de uma banda estão expostos foi produzido pelo eng. Márcio Henrique Mendes, da Universidade Federal do Paraná, cuja leitura recomendo:

http://www.producaoonline.org.br/rpo/article/view/270/345

Em resumo desse estudo, como regra básica e cuidados imediatos que você pode tomar nesse exato momento, são recomendáveis que os músicos não permaneçam expostos diretamente as caixas de som por muito tempo. Também é importante reduzir o volume dos equipamentos sonoros nos ensaios, utilizar EPIs (equipamento de proteção individual), quando necessários e evitar exposição extra-ocupacional ao ruído, como por exemplo a utilização de fones de ouvido com volume alto.

Os três exemplos de EPIs básicos estão nas figuras.

EPI’s

O principal é não expor sua audição a sons com intensidades superiores a 90 dB, pois o ouvido humano quando exposto acima desta intensidade por tempo prolongado já pode apresentar perda auditiva.

Vamos para um grande exemplo:

Paul Gilbert e seus fones de ouvido.

Aproveitando a tour pelo Brasil deste brilhante guitarrista Paul Gilbert, podemos observar que ele usa fones de ouvidos em suas apresentações. Hoje em dia este ícone da guitarra vive com a perda auditiva de toda uma “vida”. Após tocar em muitas bandas consagradas, muitas horas de estudos, centenas de shows com “paredes de amplificadores”, sonho de qualquer guitarrista, o resultado foi que ele passou a ter dificuldades em ouvir altas frequências e contraiu tinnnitus ( “zumbidos” ). Hoje, Paul tem dificuldade de ouvir e entender o que as pessoas estão falando.

Em suas entrevistas, ele tem expressado o desejo de ter feito algumas coisas diferentes em sua vida, como por exemplo, ter seguido alguns sábios conselhos voltados para a saúde auditiva quando era mais jovem. E gostaria muito, hoje em dia, de acompanhar uma conversa sem dificuldades.

Desta forma, Paul arrisca alguns conselhos aos jovens músicos:

  • Não fique perto de alto-falantes enquanto o som estiver ligado;
  • Não aumente o volume de seu headphone, mesmo que esteja ouvindo sua música favorita;
  • Não aumente o som do carro quando estiver dirigindo;
  • Se você é músico não é aconselhável gravar em estúdio durante 14 horas ao dia com um metrônomo em volume alto no seu headphone;
  • Não tente gravar em lugares inapropriados, pois isso pode causar frustração e confusão relacionadas a acústica e pode levar você a querer aumentar ainda mais o volume do som;
  • Não permaneça em ambientes com som alto, a não ser com o uso de protetor auditivo, ou caso contrário, retire-se do local.

Bem amigos, falar o quê depois desse testemunho? Espero tê-los alertado principalmente sobre este assunto tão importante para os músicos em geral. Não esqueçam de comentar e dividir suas experiências com todos nós.

Um grande Abraço e até o próximo post.