Saber avaliar performances é uma arte que se aprende

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Olá galera, tudo bem?

Nesse segundo post exclusivo para o blog da Santo Angelo quero abordar um tema extremamente sensível ao ser humano e que tem componentes ainda mais sutis do que os descritos no artigo anterior onde avaliamos a crítica a instrumentos, equipamentos e acessórios musicais e de Áudio. Se não viu, veja aqui 

Mas, como avaliar performances e trabalhos profissionais?

De pronto é possível imaginar que os inevitáveis componentes ligados ao ego e ao orgulho certamente entram em choque em face da credibilidade do avaliador.

E isso é verdade!

Então, vamos lá…

Dimensionar e avaliar os trabalhos das pessoas é quase insano!

Antes que você imagine um texto recheado de citações academicamente compiladas de psicologia por conta do título acima, tente imaginar o mais grato dos sentimentos interiores: o ego.

Esse pequeno e misterioso reflexo de nossa imagem introspectiva atua como uma espécie de monitor das nossas relações sociais.

Ter uma avaliação negativa atinge diretamente o amor próprio ferindo o orgulho que comumente nos faz manter o peito ereto e a conduta social desafiadora e uma sociedade competitiva como a que vivemos.

Diferentemente da avaliação de equipamentos, a avaliação pessoal se mistura com a avaliação profissional e dessa fusão surge a inevitável reação.

Quando avaliado, quantas vezes você já falou… “Quem é esse cara para me julgar ou julgar o meu trabalho”?

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Mesmo que dito exclusivamente para si mesmo, esse é o reflexo visceral de um organismo que mesmo virtual e muito vivo dentro de nós. E o chamamos de Orgulho.

Nenhum profissional faz o seu trabalho ou desenvolve um projeto dimensionando a probabilidade do erro ou de insuficiência técnica no resultado final.

Todos querem acertar…, mas nem todos conseguem.

Quando defino como insana a avaliação pessoal é porque ela precisa partir de um processo de insanidade controlada onde nada parece ser o que é, e tudo precisa ser reescrito com o foco exclusivo no trabalho ou habilidade de quem está sendo avaliado.

Os limites de uma avaliação usam essa insanidade para restringir a capacidade e o poder de julgar um profissional.

Um exímio designer de amplificadores pode estar na cadeia por atrasar a obrigação de alimentos para com a ex-mulher, mas isso não lhe tira o mérito e o reconhecimento por seu desempenho profissional.

Doutra sorte podemos avaliar um cidadão exemplar por nobre conduta pessoal e ilibada vida financeira, sem nunca ter tido sequer um cheque devolvido em toda a sua vida bancária. Porém, como luthier mostra extrema dificuldade na simplória habilidade de alinhar trastes no braço de um instrumento.

A circunstancial definição de bom ou ruim fica assim obrigatoriamente restrita ao seu campo da avaliação e nesse contexto ela precisa ser: tópica, pragmática e insana.

Na hermenêutica convencional a insanidade representa a falta de senso pré-determinado, a inexistência de capacidade cognitiva que possa transcender o campo da observação tópica e limitada ao universo da ação e reação.

E nisso está o foco na hora de avaliar pessoas e sua habilidade profissional.

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A relação interpessoal e a habilidade de se relacionar com o seu meio social tem importância relativa e não são fatores decisivos para a conclusão final.

Ser simpático, boa praça e ter um excelente network não faz um profissional digno de elogio ou crítica, dependendo da ótica que se usa como critério.

Em outro sentido, conduta oposta não desmerece o seu talento e a sua capacidade tida como foco da avaliação.

Junte a tudo isso a volatilidade inerente a qualquer atividade criativa ou meramente manual. Errar e acertar muitas vezes são circunstanciais e isso não pode ser ignorado na hora da valoração final.

Assim sendo, a separação entre o profissional e o pessoal injeta uma dualidade tênue e complexa na hora de determinar o que é bom ou ruim.

Fazer um bom trabalho não faz um grande profissional. Fazer muitos bons trabalhos, sim.

O erro não faz o mau profissional, mas muitos deles sim.

Na hora de julgar ou valorar pessoas, é preciso dimensionar os limites dessa avaliação porque deles virá o aproveitamento e a real utilidade do conceito emitido.

E independentemente do campo dessas variáveis, inevitavelmente você sempre ouvirá… “Quem é esse cara para me julgar?”

É a reação natural do orgulho ferido.

Boas reflexões!

Abraços e até a próxima!

Gustavo Victorino é músico, produtor, advogado, engenheiro, jornalista e radialista, assinam coluna mensal na Revista Backstage e curador da Festa Nacional da Música , o maior encontro da música brasileira que acontece anualmente no Rio Grande do Sul.