Saber criticar é uma arte que se aprende

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Olá galera, tudo bem?

Primeira vez aqui no blog da SANTO ANGELO e estou feliz em dividir com vocês um pouco da minha experiência de vários anos no mercado da Música atuando como radialista e jornalista do setor.

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O tema que escolhi para começar nossa jornada é sobre esse complicado e complexo mundo da Crítica. Afinal, criticar todo mundo sabe, mas criticar bem de maneira que o criticado (pessoa ou objeto) possa crescer e evoluir é uma arte que se aprende.

Começaremos pelas avaliações de instrumentos, equipamentos e acessórios musicais e de Áudio. Em outro post futuro, falarei sobre avaliações de pessoas e trabalhos profissionais, se vocês quiserem, é claro. Vamos lá?

Avaliar um equipamento ou acessório é transparente e necessário?

Ao longo de mais de 40 anos tenho vivenciado coisas curiosas no mercado de áudio e instrumentos musicais, e parte delas ligadas à crítica e análise de instrumentos, equipamentos e acessórios.

Mas afinal, o que habilita alguém a avaliar algo tão específico e complexo quanto os milhares de itens que compõe esse segmento?

Numa resposta rápida, todos seriam pragmáticos afirmando que o hábito de uso e o conhecimento técnico são suficientes para habilitar um bom crítico ou analista.

 Acreditem! Isso ainda é pouco…

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Avaliar equipamentos, instrumentos e acessórios é bem mais do que reproduzir dados técnicos de catálogos e sobre eles desenvolver teses de utilização e manuseio.

Ao desenvolver e lançar novos produtos, os fabricantes fazem estudos que vão desde a receptividade do mercado até o acabamento físico do equipamento.

São semanas de discussões que mesmo diante das alternativas pré-prontas das fábricas chinesas, geram dúvidas que tornam voláteis o investimento de milhares de dólares em seu desenvolvimento.

A avaliação das muitas variáveis deve obrigatoriamente fazer parte da análise e crítica de qualquer equipamento e nisso reside a grande questão que hoje se impõe.

 Afinal, o que é um bom ou um mau equipamento? Bom para quem? Ruim para quem?

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Avançar nesse tema é pisar em terreno espinhoso de vaidades e preconceitos que inevitavelmente geram incompatibilidades, discussões e muita polêmica.

Em mais de 25 anos na revista Backstage, assinei centenas de avaliações e críticas de equipamentos e me orgulho de nunca ter sido contestado. E a fórmula é simples…respeito com todos os envolvidos.

Utilizar exaustivamente, conhecer detalhes da manufatura, explorar os recursos, avaliar o público alvo, tirar dúvidas operacionais e, acima de tudo, contextualizar o equipamento ou acessório avaliado são fundamentais para obter o respeito.

Novos produtos buscam nichos de mercado e a eles deve ser enquadrado o perfil do equipamento analisado. Avaliar uma guitarra de mil dólares e outra de 10 mil dólares não dá a primeira uma classificação de algo ruim e a segunda como algo maravilhoso. São propostas diferentes e não raramente invertem a lógica da opinião na hora da avaliação.

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A tão propalada relação custo benefício que habita a quase totalidade dos textos de avaliação nada mais é do que um escapismo que distorce o conceito de qualidade e descortina uma desinformação sobre as variáveis que precisam compor uma boa análise.

Ser barato não dá o direito de ser ruim, e ser caro não significa obrigatoriamente ter boa qualidade.

As variáveis estéticas têm avaliação personalíssima, mas opinar sobre acabamento tem critérios rígidos na indicação de defeitos, falhas, deformações e encaixes que justifiquem um elogio ou uma crítica. Nessa hora é preciso cuidado com as conclusões porque estética e acabamento não podem se misturar na hora de opinar.

No aspecto tecnológico, a visão periférica e utilitária deve sempre prevalecer sobre os recursos disponíveis, afinal, querer tudo o tempo todo é sonhar com o moto perpétuo impossível. Nessa hora é preciso enxergar sempre a água que está no copo, nunca o que falta para completá-lo.

É proibido omitir opiniões sobre possíveis melhorias, mas sempre valorizar prioritariamente o disponível. O que falta em uns, pode ser excesso em outros, e isso não é raro. Ao avaliar as possibilidades mercadológicas é de bom tom aceitar a misteriosa lei da receptividade subliminar que jamais explicou o sucesso de lançamentos limitados e o fracasso de preciosidades.

O mercado tem vida própria e não obedece a regras acadêmicas. Se assim fosse, o sucesso seria compilado e estaria ao alcance de todos. No mundo real não é assim.

E é nesse mundo que os critérios de análise, avaliação e dimensionamento de uma crítica precisam navegar em águas serenas, onde o respeito e a pesquisa traçam linhas paralelas que levam à credibilidade do analista ou crítico.

Ser imparcial é buscar nunca um critério com um fim em si mesmo. Ninguém é totalmente imparcial, apenas tenta sê-lo. Entender isso é o primeiro passo na busca da credibilidade na hora da crítica ou do elogio.

Nenhuma mensagem, por mais completa que seja o seu conteúdo, consegue transcender a capacidade de assimilação do seu receptor, logo, ser coerente e respeitoso não é virtude, é pressuposto.

 Criticar a crítica é também um direito e aceitar isso é profissionalismo.

Abraços e boa sorte!

Gustavo Victorino é músico, advogado, engenheiro e radialista. É colunista mensal da revista Backstage e curador do Festival da Música, grande evento que acontece atualmente no Rio Grande do Sul envolvendo artistas, gravadoras e empresas ligadas a Música.