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Atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu … e quem não gosta de guitarra.

por Isis Mastromano Correia

Se você ainda não morreu, meu amigo, deveria ir atrás do Trio Elétrico, sabia? Pelo menos é o que disse Caetano Veloso, em 1969: “atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu”. Se você chegou até esse texto, bem, já tem a prova de que está vivinho da Silva e aí a gente tem outra notícia para te dar: se você está respirando e simultaneamente é fã de guitarra, o bicho vai invariavelmente pegar pro teu lado e terás de dar uns passinhos, ainda que tímidos, atrás do trio, sim senhor! Ao menos, para remontar a história da guitarra que hoje você empunha com orgulho nas mãos.

Quando fazemos enquetes nas redes da SANTO ANGELO para saber qual é o guitarrista preferido da galera, surgem constantemente gente como Joe Satriani, Yngwie Malmsteen, Steve Ray Vaughan, John Petrucci, Steve Vai e tantos músicos estrangeiros. Quanto a isso não há nada de errado, eles são o máximo mesmo, técnica e musicalmente falando. Mas a gente acredita que nessa lista infindável de talentos tem uma lacuna não preenchida por dois sujeitos cuja historia é tão fenomenal quanto o amontoado de consoantes que forma o sobrenome dos músicos do mainstream internacional. Senhoras e senhores, com vocês, Dodô e Osmar!

Dodô e Osmar posam para retrato em 1950

Dodô e Osmar posam para retrato em 1950

Os baianos Dodô Nascimento (1920-1978) e Osmar Macedo (1923-1997) são os criadores do Trio Elétrico de Carnaval, mas, dividem com outros nomes pomposos (e também cheios de consoantes) o grande posto de inventores de nada menos do que a guitarra elétrica. Para os patriotas, a má notícia: não é possível conceder o mérito da invenção da guitarra para uma única pessoa. O instrumento foi resultado de uma longa evolução e colaboração mútua entre vários “professores Pardais” espalhados pelos laboratórios do mundo entre os anos 20 e 30. Dodô e Osmar, músicos e eletricistas, se conheceram em um programa de rádio em 1938 e pesquisavam, desde então, uma forma inovadora de amplificar o som dos instrumentos populares de corda como o violão, o bandolim e o cavaquinho.

Osmar e a Fobica

Osmar e a Fobica

Veja como a criação universal é sempre feita a mil mãos: a peça imprescindível da guitarra é o captador que transforma a vibração das cordas de aço em sinais elétricos, que são enviados (opa, olha a SANTO ANGELO aí gente) ao amplificador e daí ao alto-falante. Esse dispositivo foi inventado em 1923 pelo músico e engenheiro acústico americano Lloyd Loar. A invenção permitiu que o suíço radicado nos Estados Unidos, Adolf Rickenbacker, construísse e patenteasse um instrumento de braço longo e corpo redondo com uma placa sólida de alumínio em 1932. Para alguns historiadores, essa foi a primeira guitarra equipada com captadores elétricos do mundo.

Enquanto nos idos de 1930, Rickenbacker, inspirado no violão havaiano, formulava sua “frigideira” elétrica, Leo Fender e Les Paul (nome artístico de Lester William Polfus 1915-2009) também já faziam suas traquitanas à base de eletricidade que despontaram para o mundo nos anos 40.  Aqui, em terra brasilis, no mesmo período, Dodô e Osmar criavam o pau elétrico: um instrumento de corpo de maciço e que por isso não gerava a microfonia dos vilões eletrificados e podia assim ser tocado às últimas alturas audíveis sem sofrimento, ou seja, antes de furar os tímpanos!

O primeiro Pau Elétrico

O primeiro Pau Elétrico

Nada mais era do um pedaço retangular de jacarandá com um captador acoplado abaixo de somente quatro cordas. O famoso corpo violão não existia, era o braço, o captador as cordas e nada mais além de uma afinação em quinta (Sol-Ré-Lá-Mi), ao modo do bandolim (eles tinham o costume de tocar os seus cavaquinhos afinados como bandolim). Tal combinação cumpria todas as características que Dodô e Osmar estavam procurando. A mesma abordagem foi usada para criar a versão de seis cordas do pau elétrico, com o braço e afinação de um violão. Nascia o “cavaquinho de Trio Elétrico”.

Alguns modelos de Rickenbacker feitos em madeira com o corpo oco geravam problemas de microfonia. Ponto para o Brasil! Por aqui, Osmar, buscava desde 1938 uma forma de usar um captador para amplificar o som de seu cavaquinho. Ao mesmo tempo ou não, mas obviamente, sem nenhuma influência de qualquer informação privilegiada que a TV ou a internet pudesse ter trazido de bandeja, Osmar descobriu que, quanto mais abraçadinho ficasse do instrumento eletrificado, ou, quanto mais ele o entupisse de enchimentos, menos microfonia ele gerava.

A conclusão foi possível depois de estudar o até então inovador instrumento, um tal de violão elétrico,  que o violonista clássico Benedito Chaves mostrou pela primeira vez ao público brasileiro no começo da década de 40. Em uma entrevista, Dodô contou que, por ser elétrico, ele “pensava que o violão tocasse sozinho”.

Era tudo muito novo em um mundo onde a eletricidade ainda era considerada um milagre e, no Brasil então, a energia era motivo de espanto! Alheio aos experimentos dos gringos, Osmar chegou à “loucura” de comprar um cavaquinho e destruí-lo ainda dentro da loja, afinal, queria mesmo era só o braço. O corpo oco não lhe servia de nada! Atitude que tocou espanto no Senhor Pepe, o dono da loja de instrumentos musicais de Salvador que viveu aquela estranha experiência. Esse insólito episódio da historia da guitarra é contado no segundo vídeo da série Made In Bahia da qual deixamos o link no final deste post.

As guitarras de madeira maciça apareceram para valer só nos anos 40, época em que os americanos Les Paul e Fender (esse, com o mérito de ser o primeiro a produzir em escala comercial guitarras de corpo sólido, a Telecaster), trabalharam paralelamente no aperfeiçoamento do instrumento.

Os registros biográficos infelizmente não deixam claro qual é a real data de criação do primeiro pau elétrico, que teria ficado pronto em algum momento entre 1942 e 1944. Em 1942, Dodô e Osmar viram um catálogo americano que anunciava um violão eletrificado tal qual o que Benedito Chaves tocara anos antes e que gerou o insight para a criação do pau elétrico. A recomendação de uso do produto era a de que, para evitar a microfonia, seria necessário testar ângulos do aparelho e nunca abrir muito o volume, coisa que eles já sabiam por experiência própria. Para a dupla brasileira, isso provava que os americanos não conheciam ainda os instrumentos maciços naquela época segundo consta no livro “50 anos de Trio Elétrico“, de Fred Góes. Enfim, o cavaquinho de trio elétrico”, mais tarde renomeado de Guitarra Baiana pelo músico Armandinho, não é um simulacro da guitarra convencional como até hoje muitos acreditam.

Pau elétrico, segundo Armandinho, filho de Osmar e herdeiro direto do legado da Guitarra Baiana, era um nome pejorativo que os amigos deram à madeira eletrificada e encordoada aqui no Brasil. O nome de batismo mesmo era cavaquinho elétrico, por se tratar da experiência de eletrificar o instrumento. Na certidão de nascimento, o pau elétrico também foi registrado como bandolim elétrico antes de se consagrar por fim como a nossa Guitarra Baiana, nome que caiu como uma palheta nas mãos de um guitarrista!

Família Macêdo, de Armandinho, herdou o legado da guitarra baiana

Família Macêdo, de Armandinho, herdou o legado da guitarra baiana

Mas, certidão, certidão mesmo, só nos registros biográficos sobre a vida de Dodô e Osmar, pois, eles nunca patentearam sua invenção, aliás, tomaram conhecimento da existência de guitarras elétricas de corpo sólido feitas nos Estados Unidos somente no fim da década de 40. O carro de som eletrizado, o Trio Elétrico, também não foi registrado.

Pois bem, o Trio Elétrico, chegamos a ele! Trio Elétrico era na verdade o nome do conjunto musical formado por Dodô, Osmar e um terceiro músico, Temístocles Aragão. Antes da entrada de Aragão, eles eram a Dupla Elétrica (claro!). Em 1950 eles revolucionaram a festa do Carnaval, com, modéstia a parte, seus instrumentos elétricos!

O Trio Elétrico

O Trio Elétrico

Isso mesmo, sem pandeiro nem agogô, o que nos ajuda em muito a argumentar contra aquela máxima de que “quem não gosta de samba, bom sujeito não é” (desculpa, Caymmi!). Dorival Caymmi, aliás, rejeitou entregar seu violão para ser eletrificado por Dodô porque isso implicaria em furar o instrumento e ele não queria arriscar. Teria Caymmi perdido a oportunidade de tocar o primeiro instrumento elétrico de um dos inventores da guitarra? É, a Música tem dessas.

Bem, a banda Trio Elétrico, de Dodô e Osmar, resolveu inovar em suas apresentações de rua e passou a se apresentar em cima de um Ford 1929, todo enfeitado, iluminado e aparelhado para a amplificação do som. No Carnaval de 1951, eles rumaram para a Praça Castro Alves, no Centro de Salvador, reduto do Carnaval das elites baianas. A geringonça barulhenta chamada carinhosamente de Fobica, surgiu em meio à ária da ópera de Verdi tocada pela banda do Clube Fantoches da Euterpe e seus cavalheiros e damas fantasiadas que cavalgavam em animais imponentes na frente de carros alegóricos.

A diretoria do Carnaval tradicional, de fraque e cartola, pediu que o carro de som fosse desligado e conforme Dodô e Osmar obedeciam, a multidão pedia que voltassem a tocar as marchinhas de frevo. O povo veio abaixo com a novidade e desde então, por conta da guitarra, o Carnaval baiano nunca mais foi o mesmo!

Se a paternidade da guitarra é dos brasileiros ou dos gringos, não se pode afirmar, o certo é que ela veio ao mundo pra causar, pra polemizar, pra pôr em xeque a supremacia das minorias e fazer parte da contracultura desde sempre.

Percebendo o rebuliço do Trio Elétrico de Dodô e Osmar e suas guitarras, uma empresa de refrigerantes  colocou um caminhão decorado à disposição dos músicos, inaugurando o formato consagrado por todos os Carnavais até hoje. A partir daí, toda banda que passava sobre um caminhão nas ruas da Bahia era chamada de Trio Elétrico. E assim o é até hoje.

Atualmente, o Trio Elétrico já não lembra em mais nada a folia feita para o povo de Dodô e Osmar e muito menos de que ele só existe por conta da “guitarrinha” (que por sinal, temos um cabos específico para ela, o African GB)! Aliás, pensar que o Trio Elétrico só existe por conta da guitarra e para a guitarra parece mesmo inconcebível em tempos de caminhões monstruosos com SPL (Sound Pressure Level) com decibéis estelares, de luminosidade ofuscante e propagandas promovendo verdadeira poluição visual.

Carro homenageia a fobica de Dodô e Osmar

Carro homenageia a fobica de Dodô e Osmar

Hoje, o Trio leva mais de 30 pessoas a bordo entre músicos e seus refrões pegajosos e repetidos à exaustão, dançarinos de coreografias manjadas e artistas que cobram fortunas para aparecer para foliões explorados ao limite do bolso.

Incongruentemente, segundo Armandinho, a saga do pai nunca lhe rendera nada na vida a não ser o reconhecimento. No documentário Made In Bahia, dividido em sete partes e disponível no canal Youtube da banda dos irmãos Aroldo e Armandinho Macedo, que continuam com o legado de Dodô e Osmar, Armandinho, diz ainda que “esse jeito pauleira de tocar samba e frevo é o rock brasileiro” e que Dodô e Osmar “foram os primeiros guitarristas elétricos nacionais”. Quem quiser conferir, vale muito a pena.

Estátua de Dodô e Osmar em Salvador

Estátua de Dodô e Osmar em Salvador

Galera da guitarra, é hora de repensar o Carnaval para que ele volte às suas origens populares o mais breve possível e salvar a Cultura das mãos de quem apenas faz negociatas usando a Música como pretexto.

Até a próxima com um pouco da história de Armandinho e os irmãos Macedo que herdaram o legado da Guitarra Baiana e não o deixam morrer e como esse instrumento cativa até hoje uma legião fiel de fãs!

Nos vemos aqui!