Guitarras Icônicas – Jimi Hendrix: “Stratocaster Monterey”

Links - Stratocaster Monterey

Por Dr. Alexandre Berni

Olá pessoal!

Continuando o assunto sobre as guitarras icônicas, muitos que acompanharam os posts anteriores talvez já estivessem esperando o de hoje: “Jimi Hendrix e suas guitarras”. Mas antes de explicar a “Monterey Pop”, queria que me respondessem:

O que faz uma guitarra ser considerada “Icônica” além de Signature?

Pergunto isso porque muitos que comentaram meus posts anteriores, nas nossas redes sociais, indicaram modelos assinados ou “Signature” como sendo “Icônicos”. Com todo o respeito aos guitarristas citados e aos fabricantes de guitarras que desejam homenagear seus respectivos endorsees (e aumentar as vendas da marca), eu pergunto: qual é a história que existe por detrás desses modelos? Seria um guitarrista excepcional que transformou uma guitarra de série em algo totalmente inovador e diferenciado? Pense nisso e continue lendo.

Nos meus posts anteriores, comentei que Eddie Van Halen montou uma guitarra com Kits, peças e até braços de outras guitarras, como um dos nossos amigos muito bem me corrigiu. Brian May construiu com seu pai a própria guitarra, porque não encontrava, nos modelos disponíveis à época, o timbre adequado ao seu ouvido. Buddy Guy mostrava todo o sentimentalismo de seus Blues com uma guitarra que o remetia à lembrança da mãe. Respondendo a pergunta anterior, acredito que a “iconização” de uma guitarra depende de quem escreveu uma história com ela. Essa é a minha opinião e você está livre para discordar e expor sua lá no final do post. Mas continue lendo porque vamos falar agora de um dos maiores, senão o maior, ícone da guitarra mundial.

Acertou se pensou em Jimi Hendrix.

No entanto, as guitarras de Jimi Hendrix não apresentavam nada de especial em sua construção ou em sua parte elétrica. Aliás, deveriam ser muito resistentes às constantes viagens do artista e, no mínimo, a prova de fogo, se é que me entende. Brincadeiras a parte, conheça um pouco da história dessa lenda.

O guitarrista, que também era cantor e compositor, nasceu no dia 27 de novembro de 1942, na cidade de Seattle, nos Estados Unidos. Sua mãe o nomeou John Allen Hendrix e o criou, enquanto o pai, James “Al” Hendrix, lutava na Segunda Guerra Mundial. Quando voltou da Europa em 1945, Al levou o filho para morar com ele em outra casa, pois tinha se divorciado da esposa por motivos de alcoolismo. Nessa época rebatizou o filho de James Marshall, lembrando que o nome do guitarrista só mudou para Jimi Hendrix, inventado por seu empresário Chas Chandler. Mas isso contarei mais tarde.

O pai de Jimi sempre o incentivou na música. Aos quinze anos, comprou-lhe um violão, ensinando-lhe os primeiros acordes. Logo depois, comprou-lhe sua primeira guitarra elétrica, uma Supro Ozark 1560S.

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Em 1959, após sair da escola, Jimi se alistou no exército, tornando-se membro da 101ª Divisão Airborne ‘The Screaming Eagles’ em Fort Campbell, Kentucky, como paraquedista. Felizmente ele não seguiu carreira militar, sendo desligado após fraturar o tornozelo em seu vigésimo sexto salto de paraquedas.

Por outro lado, a carreira de Jimi Hendrix foi meteórica, graças ao seu talento evidente e muita dedicação. Trabalhou como guitarrista de estúdio sob o nome de Jimmy James e até o final de 1965 já havia tocado com diversas bandas, incluindo Ike e Tina Turner, Sam Cooke, The Isley Brothers e Little Richard. Os shows com Little Richard enfrentaram algumas controvérsias devido aos trajes chamativos que Jimi usava, pois Richard achava que nada deveria desviar a atenção dele, que era a estrela principal. Com isso, Jimi saiu da banda e formou a Jimmy James and the Blue Flames. Daí por diante, formou e desmanchou diversas bandas.

Jimi é considerado por críticos e músicos como o melhor guitarrista da história do rock e um dos mais importantes e influentes músicos do seu tempo, em diferentes estilos musicais. Após fazer sucesso na Europa, levado pelo seu empresário Chas Chandler. Aliás, foi Chas, também baixista do THE ANIMALS, quem o “rebatizou” como Jimi Hendrix, em 1966. Jimi conquistou fama nos Estados Unidos depois de uma apresentação em 1967, no Festival Pop de Monterey, Califórnia – EUA, quando imortalizou o modelo de guitarra mais tarde conhecido como Stratocaster Monterey depois de tê-la queimado e quebrado completamente.

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Quase três anos mais tarde, Hendrix foi a principal atração do lendário Festival de Woodstock e do Festival da Ilha de Wight, em 1969 e 1970, respectivamente.  Acredito que muitos músicos consideram a imagem ou o áudio do Festival de Woodstock na atuação de “Star Spangled Banner” (Hino Nacional dos Estados Unidos), não como um símbolo de orgulho nacional, mas sim como uma crítica loquaz aos ataques contínuos dos Estados Unidos ao Vietnã. Momentos antes de subir ao palco, Jimi debateu se deveria ou não executar o hino com o empresário da época, Mike Jeffrey, que temia um protesto. Jimi ignorou suas preocupações, decidindo com todo mundo assistindo, que não haveria palco melhor para mostrar seu desgosto e desprezo com a guerra e suas repercussões, do que com um desempenho que se tornou parte integrante da história americana.

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E por que essa Strato branca não pode ser considerada como a Icônica de Hendrix?

Muita calma nessa conclusão, porque, além do fato de Jimi Hendrix adorar o timbre das Fenders Stratocaster, acredito que a história do Festival de Monterey é ainda mais forte que a de Woodstock. Mas seguimos adiante para decidirmos qual modelo icônico escolher para este grande guitarrista.

Como já comentei, Jimi foi descoberto por Chas Chandler, que o levou à Inglaterra, onde Jimi também formou uma nova banda, The Jimi Hendrix Experience, com o baixista Noel Redding e o percussionista Mitch Mitchell. Não demorou muito e suas primeiras apresentações em Londres foram um sucesso.

Em seguida, obteve mais fama com “Purple Haze”, “The Wind Cries Mary” e “Hey Joe”, músicas que, na época, chegaram aos top 10. Em 1967, o grupo lançou seu primeiro álbum, “Are You Experienced”, que fez mais um grande sucesso. Ao mesmo tempo, as apresentações de Hendrix se tornaram ainda mais vibrantes. Em março deste ano, ele foi levado para o hospital com queimaduras depois de pôr fogo em sua guitarra pela primeira vez no Astoria Theatre, em Londres.

No Festival Pop de Monterey, Hendrix voltou a incendiar e quebrar uma guitarra como já comentei anteriormente, marcando o início dos anos mais brilhantes da carreira do guitarrista, mas controverso na vida pessoal.

Em dezembro de 1967, Jimi lançou o álbum Axis: Bold as Love, que seguiu o estilo de “Are You Experienced”. Nesta época, Hendrix também vivia atritos com Noel Redding e abusava de drogas e álcool. Essa combinação explosiva resultou em prisão no começo de 1968, em Estocolmo, na Suécia, ao destruir um quarto de hotel por conta de um ataque de fúria pela embriaguez.

Pouco tempo depois, veio o terceiro álbum, o duplo Electric Ladyland (1968), com a clássica versão da música de Bob Dylan “All Along the Watchtower”. Nesta época, Hendrix decidiu retornar aos EUA e criar seu próprio estúdio em Nova Iorque, batizado de “Electric Lady”. Ao mesmo tempo em que queria abrir seu horizonte musical, seu relacionamento com a banda foi piorando e o Experience acabou em 1969. Em agosto, formou uma nova banda, “Gypsy Suns and Rainbows”, para tocar no Festival de Woodstock. Esta formação teve vida curta e Hendrix integrou um novo trio com velhos amigos, o “Band of Gypsys”. Antes da sua morte, Hendrix iria começar um novo projeto, com a banda chamada HELP (Hendrix, Emerson, Lake & Palmer).

Contudo, a vida de Jimi foi interrompida com a sua morte em 18 de setembro de 1970.

As horas que antecederam a morte prematura estão sujeitas a inúmeras teorias da conspiração, devido às declarações confusas de sua parceira na época, Monika Dannemann, uma alemã de vinte e cinco anos de idade. O post-mortem revelou que ele tinha vomitado em seu sono e sufocado até a morte devido a uma overdose de comprimidos para dormir, que pertenciam a Monika. Em busca de uma noite inteira de sono, Jimi teria pedido para Monika alguns de seus poderosos sedativos alemães, o Vesparax. Desconhecendo a dosagem que era de meio comprimido, Jimi tomou nove. Infelizmente não houve um salvamento imediato e aos vinte e sete anos ele nos deixou.

As técnicas de guitarra mais peculiares de Hendrix, como tocar com os dentes e de costas, além  de ser canhoto, e usar a guitarra invertida, espantaram o público e contribuíram para sua reputação como um showman. Quantas guitarras, ocasionalmente, ele usava outras marcas além da Fender Stratocaster, como Gibson SG, Flying V e uma Les Paul. Em raras ocasiões, ele tocou com uma Fender Jazzmaster e uma Fender Duo-Sonic. Uma Flying V muito conhecida foi a customizada para ele.

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Para confirmar a minha escolha da “Monterey Stratocaster” como a Icônica de Jimi Hendrix, lembro ainda que ele queimou guitarras em três ocasiões – em Londres, em Miami e no Festival Pop Internacional de Monterey. Esta última tornou-se a mais famosa das três por ter sido registrada no filme feito sobre o festival e também por ter sido recriada em uma série especial vendida pela Fender, hoje descontinuada. Quem sonhar em ter uma réplica desta guitarra, terá que recorrer a um luthier ou empresa especializada em pintar e customizar guitarras. A guitarra original está toda quebrada e percorre o mundo em exposições destinadas ao artista.

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A primeira guitarra que foi incendiada por Jimi na casa de espetáculos London Astoria, em 1967. Após tê-la restaurado, voltou a ser queimada no show realizado no ano seguinte no Miami Pop Festival. Foi então que o guitarrista Frank Zappa, que na época também participou deste Festival, resgatou a guitarra e a restaurou, usando-a em seu disco Zoot Allures, de 1976. Em 1991, Dweezil Zappa, filho de Frank, a encontrou embaixo de uma escada em sua casa no estúdio de seu pai Frank e a restaurou novamente. Em maio de 1992, Dweezil colocou a guitarra a leilão nos Estados Unidos, esperando faturar um milhão de dólares, mas a venda não foi efetuada.

Tentou novamente leiloá-la em setembro, por 450 mil libras (em torno de 650 mil euros), mas mais uma vez a venda não foi efetuada. A maior oferta feita por telefone, de 300 mil libras (em torno de 430 mil Euros) foi recusada. A lendária Strato Branca de 1968 que Hendrix tocou no Woodstock foi vendida na Casa de Leilões Sotheby de Londres, em 1990, por £ 174 mil (em torno de 250 mil Euros). A guitarra foi revendida em 1993 por £ 750 mil.

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Embora ele possuísse e usasse diversos modelos de guitarra durante sua carreira (incluindo uma Gibson Flying V que ele decorara com motivos psicodélicos), sua guitarra preferida, e que será sempre associada a ele, era a Fender Stratocaster, ou “Strat”. Ele comprou sua primeira Strat por volta de 1965 e usou-a quase constantemente durante o resto de sua vida.

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Mas Hendrix também revolucionou os equipamentos da época.

Jimi foi também um revolucionário no desenvolvimento da amplificação e dos efeitos com a guitarra moderna. Sua alta energia no palco e volume elevado com o qual tocava requeriam amplificadores robustos e potentes.

Durante os primeiros meses de sua turnê inicial, ele usou amplificadores Vox e Fender, mas rapidamente descobriu que eles não podiam aguentar o rigor de um show da sua banda. Felizmente ele descobriu o alcance dos amplificadores de guitarra de alta potência fabricados pelo engenheiro de áudio inglês Jim Marshall e eles se mostraram perfeitos para as necessidades de Jimi.

Assim como ocorreu com a Strat, Hendrix foi o principal promotor da popularidade das “Pilhas de amps Marshall” e os amplificadores dessa marca foram cruciais na modelagem do seu som pesado e saturado, habilitando-o a controlar o uso criativo de “feedback” (N.T. re-alimentação) como efeito musical.

Hendrix foi também constante na procura de novos efeitos de guitarra. Ele foi um dos primeiros guitarristas a se lançar além do palco e explorar por completo as totais possibilidades do pedal wah-wah. Ele também teve uma associação muito proveitosa com o engenheiro Roger Mayer e fez uso extensivo de muitos dos dispositivos desenvolvidos por ele, incluindo a “Axis Fuzz Unit”, o “Octavia octavia doubler” e o “UniVibe”, uma unidade de vibrato desenvolvida para simular eletronicamente os efeitos de modulação dos alto-falantes Leslie.

O som de Hendrix era uma mistura única de alto volume e alta potência, controle preciso do “feedback” e uma variação de efeitos de guitarra cortantes, especialmente a combinação “UniVibe”-“Octavia”. Até hoje em dia estes efeitos de guitarras são vendidos:

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Conclusão:

Bem pessoal, o intuito deste post foi contar um pouco da história de Jimi Hendrix e eleger sua guitarra icônica como sendo a Fender Monterey Pop, pela apoteótica imagem de um músico reverenciando um instrumento musical pelo fogo, como uma das mais primitivas formas de adoração dos seres humanos.

Se não concordarem, já sabem como fazer: comentem aqui ou nas redes sociais da SANTO ANGELO.

Grande abraço e até a próxima!