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Madeiras brasileiras nos instrumentos musicais?

Por: Dr. Santo Angelo.

Você que me acompanha toda 2ª feira, sabe que recentemente falei dos nuts e dos abaixadores de cordas. Hoje vamos falar de um item ainda mais básico e igualmente importante na construção de nossos instrumentos: a madeira, principalmente as brasileiras.

O som produzido pelos instrumentos musicais de madeira é influenciado tanto pelo seu formato e dimensão quanto pelas propriedades das madeiras utilizadas na sua fabricação. Desta forma, a madeira tem um papel importante na qualidade tonal do instrumento, fazendo do maior mérito na arte dos luthiers a habilidade de escolher a madeira mais apropriada para produzir instrumentos musicais com qualidade. Desse modo, os fabricantes (luthier ou indústria), acabam utilizando sempre as mesmas espécies de madeiras na produção de instrumentos musicais.

Tipos de madeira

Cada tipo de madeira é recomendado para um determinado instrumento e os melhores cortes de madeira são disputados a tapas pelos luthiers, seja de madeiras ideais para violões, guitarras ou baixos. Confira os principais tipos:

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Carvalho silvestre: não é tão rígido quanto a maioria das madeiras e por ser mais maleável é muito utilizado para fazer as laterais de violões acústicos. O carvalho rígido geralmente é utilizado par ao cabo de violinos e guitarras, devido a seu peso e rigidez.

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Pinheiro: é a madeira mais utilizada para topos de guitarras acústicas. Sua qualidade de tom se transfere ao instrumento, caracterizando os acústicos.

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Mogno: por ser uma madeira densa e pesada, geralmente é utilizada para a confecção do corpo das guitarras elétricas. Possui ainda alta qualidade de suavidade e apresenta comprimidas reproduções de frequências de baixos e médios tons.

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Basswood: é considerada uma madeira de aparência não muito atrativa e geralmente é utilizada em equipamentos e instrumentos de baixo custo. Como é uma madeira macia e facilmente quebrável, requer um acabamento resistente para proteger o instrumento. Por sua resposta de frequência consistente, é muito utilizada em contrabaixos.

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Jacarandá: é a madeira mais pesada utilizada na fabricação de instrumentos musicais, geralmente na construção de escalas de guitarras. Por ser muito difícil de se dobrar, raramente é vista no corpo da guitarra e é capaz de amortecer os sons da guitarra por um amplificador.

De um modo geral, cerca de 200 espécies de árvores são usadas na produção de instrumentos musicais no planeta; 70 delas são ameaçadas de extinção. O uso recorrente dessas madeiras, inclusive por indústrias de outros segmentos, como o de móveis, explica a ameaça e a raridade de algumas espécies. No Brasil, por exemplo, é crítica a situação do jacarandá-da-bahia, utilizado em instrumentos de corda, e do pau-brasil Caesalpinea echinata, utilizado para fabricar arcos de violino. Ambas são protegidas por Lei e têm sua derrubada proibida. A madeira de pau-brasil é muito procurada no exterior, sendo considerada mundialmente a única que reúne características ideais de ressonância, densidade, durabilidade, beleza, além da extensão da curvatura, do peso, da espessura e de preciosas qualidades tonais, para a confecção dos melhores arcos de instrumentos de corda. O cerne do pau-brasil é alaranjado, bastante evidente na árvore recém-cortada, decorrente da presença de brasilina, que oxida com a exposição ao ar, assumindo uma coloração vermelha-coral muito apreciada.

Há 40 anos, o Laboratório de Produtos Florestais (LPF), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, viabiliza soluções tecnológicas para a utilização de produtos das florestas, especialmente madeiras, de modo sustentável. A pesquisa por madeiras alternativas às tradicionalmente usadas na fabricação de instrumentos musicais está dentre aquelas realizadas pelo LPF. O pesquisador Mário Rabelo e sua equipe estudaram mais de 300 espécies madeireiras e descobriram possibilidades na floresta amazônica para substituir espécies estrangeiras, mantendo a mesma qualidade física e sonora dos instrumentos. A pesquisa propõe o casamento do mercado de instrumentos e seus interesses econômicos com a proteção ambiental, reduzindo a pressão principalmente sobre as espécies ameaçadas de extinção.

Como foi feita a pesquisa?

A avaliação de algumas características e propriedades define se uma madeira é ou não de boa qualidade. A avaliação é feita no cerne uma vez que não se utiliza alburno para a confecção de instrumentos musicais. As espécies de árvores estudadas foram selecionadas por meio de um teste acústico e de acordo com suas características anatômicas (cor, grã, textura e figura), propriedades físicas (densidade da madeira e contração) e propriedades mecânicas (módulo de ruptura e elasticidade na flexão estática). Essas características e propriedades foram comparadas às das espécies importadas, tradicionalmente usadas na fabricação de instrumentos musicais e usadas como parâmetro de madeira de boa qualidade.

Fonte: Revista Ibama: uma janela para a informação ambiental (Ano II, nº 2).

Fonte: Revista Ibama: uma janela para a informação ambiental (Ano II, nº 2).

A madeira, embora tenha densidade menor à dos metais, tem uma velocidade de propagação sonora semelhante a eles. No teste acústico, desenvolvido para instrumentos de corda, um aparelho, controlado por um computador, capta a vibração transmitida de uma extremidade a outra das amostras de madeira e mede a amplitude e frequência da ressonância, ou seja, a velocidade de propagação do som. As amostras são pequenas réguas de 30 x 2 x 0,3 cm de dimensão. As madeiras de alta densidade apresentaram, geralmente, baixa velocidade de propagação sonora. Madeiras de baixa ou média densidade e alta velocidade de propagação, como o marupá, são alternativas para os fabricantes nacionais de guitarras em substituição ao mogno, espécie tradicionalmente utilizada na fabricação desses instrumentos, mas ameaçada de extinção.

A avaliação de algumas características e propriedades das madeiras, utilizada para selecionar aquelas de boa qualidade, não é definitiva para a escolha de uma espécie para a fabricação do instrumento musical, mas sim um indicativo de sua potencialidade. Existem inúmeras características que podem definir o timbre de uma madeira, até mesmo, variações dentro da mesma árvore.

Qual a importância da pesquisa?

As madeiras brasileiras podem produzir instrumentos musicais de qualidade, podendo ter características semelhantes ou até superiores às tradicionalmente utilizadas. Para os fabricantes de instrumentos musicais, o uso de madeiras brasileiras alternativas representa um incremento dos negócios a partir da queda de preço dos produtos sem perda de qualidade.

A árvore morototó, por exemplo, pode ser utilizada para fazer o tampo do violão no lugar do spruce, madeira importada. No braço do instrumento, a andiroba pode substituir o maple, outra madeira importada. O fabricante que gastava U$ 100 para importar apenas a madeira do tampo, utilizando espécies brasileiras, consegue comprar, pelo mesmo valor, todas as madeiras do instrumento. Com o dinheiro da montagem de um violão importado, pode-se fazer dois ou três violões com madeiras brasileiras. Já existem no mercado violões 100 % brasileiros.

 Outro exemplo de instrumento fabricado integralmente com madeira nacional é o fagote feito de imbuia, executado pelo músico fundador da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, onde até hoje é seu primeiro fagotista, Hary Schweizer. Ex-professor de música da Universidade de Brasília, ele produz e toca fagotes feitos com madeiras brasileiras. Segundo o músico, ele aventurou-se na fabricação dos instrumentos porque não eram produzidos no Brasil, todos tinham de ser importados a um alto custo. Há mais de 20 anos os fagotes de Schweizer fazem sucesso em orquestras brasileiras, americanas e cubanas.

Exploração sustentável

Um ponto a ser observado pelo luthier e que também interessa ao consumidor final é a origem da madeira que deu origem ao seu instrumento. A exploração indevida de árvores, especialmente aquelas citadas acima provenientes da floresta amazônica, ameaça algumas espécies utilizadas na indústria de extinção.

Para ter certeza de que a madeira não é fruto do comércio ilegal que prejudica toda a fauna e a flora brasileiras, ele deve observar se o material possui selos que certifiquem a exploração sustentável da madeira. O Forest Stewardship Council (FSC) é uma organização independente, não governamental, sem fins lucrativos, criada em 1993 para promover o uso responsável das florestas ao redor do mundo. A certificação FSC é uma garantia internacionalmente reconhecida que identifica, por meio de sua logomarca, produtos madeireiros e não madeireiros originados do bom manejo florestal.

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O selo FSC garante que a madeira usada como matéria-prima foi obtida de forma legal, e de florestas exploradas de acordo com os princípios, critérios e normas difundidos pelo Conselho Brasileiro de Manejo Florestal (FSC Brasil), os quais conciliam a extração lucrativa de árvores, para a produção de celulose e papel, com a conservação e benefícios sociais. Para que as madeiras alternativas e os selos se propaguem é necessário que músicos, luthiers e indústrias acreditem que é possível crescer economicamente sem destruir as florestas. Sem floresta, não há música. Não como a conhecemos há gerações.

Qual madeira escolher?

Quando compramos um instrumento pronto, de uma determinada marca ou luthier, precisamos analisar a madeira da fabricação, seus benefícios e depois escolher com cuidado, principalmente quando o instrumento é feito por um luthier. Convém conversar com o profissional e escolher a madeira de acordo com sua necessidade e gosto pessoal.

O timbre desejado, o peso do instrumento e o formato que será fabricado são itens que devem ser analisados com cuidado para fabricar o instrumento e a escolha do material deve ser feita de forma consciente por parte dos consumidores e do profissional envolvido, que deve orientar seu cliente sobre o que e como fazer corretamente a customização de maneira que não faltem madeiras para os instrumentos das próximas gerações.

Até a próxima.