Feliz dia internacional da música?

Ciao erudita leitora e clássico leitor, va tutto bene com te?

Calma que logo mais você vai entender a saudação em Italiano nesse post que comemora o Dia Internacional da Música, instituído pela UNESCO em 1975. Da proposta inicial, destacamos o trecho final:

“We hope that this first International Music Day will constitute a major achievement among our’ activities, and that it will become an annual event for the propagation of greater knowledge of our art, arid for the strengthening of the bonds of peace and friendship between peoples through music.”,

“Esperamos que este primeiro Dia Internacional da Música constitua uma grande conquista entre as nossas atividades, e que se torne um evento anual para a divulgação de um maior conhecimento da nossa arte, e para o fortalecimento dos laços de paz e amizade entre os povos através da Música.”

 

Mas, como fica a divulgação da Música, quando os músicos, em tempos de pandemia e isolamento social, encontram cada vez menos oportunidades de trabalho?

Para começar, esse não é um problema só brasileiro, como demonstrado em uma recente pesquisa, nesse outro post do blog SANTO ANGELO  que 64% dos músicos britânicos consideram abandonar a profissão.

E até parece que os mestres Tom Jobim  e Vinicius de Moraes já tinham adivinhado essa situação quando compuseram “A Felicidade” em 1959:

“Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

Preste atenção ao último verso, erudita leitora e clássico leitor, porque a nossa missão, aqui no blog SANTO ANGELO, é trazer toda semana, “ventos sem parar e mantendo a pluma sempre voando”, ou seja, temas que o motivem a seguir em frente, animando sua carreira musical.

Enquanto você processa essas ideias com sua vontade de continuar tocando seu instrumento musical, lembramos que existe a opção de ouvir esse e outros conteúdos do blog no Spotify, clicando na imagem abaixo, ou se preferir usar outro agregador de Streaming, busque por “Blog SANTO ANGELO”, sem esquecer de ativar o botão “seguir” combinado?

Assim, como já falamos de Beethoven e de Paganini, em posts anteriores do Dia Internacional da Música, agora vamos explorar a Resiliência pessoal falando de um compositor referência que criou uma obra gigantesca e atemporal, inspirando músicos dos mais variados instrumentos, inclusive guitarristas famosos, que já beberam bastante dessa fonte.

Nosso astro clássico de hoje é Antonio Lucio Vivaldi, capito ora, lettore?

Nascido na cidade de Veneza, Itália, em 4 de março 1678, era o irmão mais velho de 7 irmãos. Seu pai, que era considerado um virtuoso violinista, sofria, desde aquela época, com a pergunta que certamente você também já deve ter escutado: mas trabalha com o quê?

Ele respondia com orgulho que era barbeiro.

Giovanni Battista Vivaldi, o pai, ensinou o pequeno Antonio Lucio às bases da Música, matriculou-o na Capela Ducal de São Marcos para que aperfeiçoasse seus conhecimentos e técnicas e teve papel importantíssimo para que seu filho fosse inserido na orquestra da Basílica de São Marcos.

Apoio da família cria músicos incríveis, e está aí uma prova tricentenária que funciona.

Em paralelo a sua carreira musical, Vivaldi ordenou-se padre em 1703, porém, no ano seguinte, foi desligado da Eucaristia por sofrer de asma (aparentemente). Nisso, focou-se em ensinar violino em um orfanato de meninas, onde, graças ao apreço que ganhou delas, compôs grande parte de suas peças para aquele público feminino.

Cerca de 10 anos depois, tornar-se-ia responsável pela ala musical do Ospedale dela Pietà (Hospital Pietà).

Os 3 anos que se seguiram, seriam importantíssimos na carreira do compositor, quando começa a produzir em maior quantidade, chegando a se tornar uma empresário teatral (era Music Business, mas não tinha esse nome ainda) e diretor musical no teatro Sant’Angelo (qualquer semelhança é mera coincidência, ok?), onde vai, finalmente, apresentar sua primeira ópera encenada, “Orlando finto Pazzo” (“Orlando, o falso louco” em tradução livre).

Em 1723, Vivaldi publicou seu maior “sucesso”: Il cimento della’armonia e dell’inventione, uma coletânea de peças que incluía os doze concertos de “As Quatro Estações”. Seu nome começou a tornar-se conhecido nos Países-Baixos (Holanda, Bélgica e Luxemburgo hoje em dia), Alemanha, Inglaterra e Itália, onde só se ouvia falar dessa composição que se tornaria, mais tarde, o maior legado de Vivaldi.

Cinco anos depois, em 1728, o concerto “D’As Quatro Estações” estreou finalmente na França, que se encantava pela obra de Vivaldi, tanto que, mesmo após sua morte, grandes nomes como o filósofo Jean-Jacques Rousseau e até o rei francês Luis XV declararam amores pelas criações do músico.

Suas composições eram conhecidas como “descritivas”, pois através dos movimentos, das sobreposições de instrumentos e das escolhas dos acordes, os sons contavam uma história, emulavam o canto dos pássaros, os sons de tempestade e os trotes dos cavalos.

Beneficiados foram os artistas de cordas desde então, pois a obra de Vivaldi focava-se bastante nesses tipos de instrumentos musicais.

Para complementar essa visão do quanto as obras eram colocadas para quem tinha escolhido os instrumentos de cordas, chamamos nosso amigo Frank Solari, guitarrista gaúcho e dono de uma interpretação maravilhosa do concerto número 2 (Verão, ou L’estate, no original em italiano), para nos contar algumas de suas impressões.

Seu primeiro contato com a música clássica veio de berço, visto que sei pai era ouvinte assíduo dos compositores eruditos, porém, apesar desse histórico familiar, não teve tanto contato com as peças no seu estudo inicial de guitarra.

Em um dado momento da carreira, foi chamado por um maestro, durante os ensaios para um show com orquestra, onde o portador da batuta perguntou se ele sabia tocar o terceiro movimento do verão de Vivaldi.

Mesmo não sabendo, Solari abraçou o desafio, pois sabia que não seria tarefa fácil.

A transposição da Música Clássica para a Música Popular (o Rock) exige muitos pontos para se observar e adaptar, como por exemplo a digitação, que pede técnicas específicas, saltos de corda normalmente pouco utilizados e o entendimento de que, a forma te tocar um violino difere muito dos instrumentos temperados, demandando mais adaptações no modo de tocar.

Além de toda a parte “mecânica” precisar dessa readaptação, existem nuances muito sutis que a música barroca faz em orquestra que ficam quase impraticáveis em um instrumento só, o que tornou o “sfida” (desafio em italiano) maior, porém, não menos empolgante.

Por cerca de um mês, Solari estudou a música, entendeu as passagens, decorou a estrutura para, finalmente, nos shows que se seguiram, executar com perfeição, junto à Orquestra de Câmara da ULBRA, a peça.

Essa experiência, que aconteceu em 2017, solidificou na visão do músico, o quanto é importante trazer essas composições atemporais com mais força para os dias de hoje, visando não só continuar seu legado, mas enriquecer o repertório dos novos artistas, independente de suas vertentes musicais.

Outra visão do Frank Solari é que, nos últimos anos, os músicos focaram-se tanto na técnica e no desenvolvimento quase puramente mecânico (você provavelmente conhece um “shreder” ou fritador que não adiciona conteúdo nenhum ao som) que a arte da composição acabou ficando de lado e as experimentações acabaram se limitando.

Esse relato todo mostra o quanto a música de Antonio Lucio Vivaldi é parte fundamental do aprendizado e da evolução dos músicos de todas as vertentes, ganhando um pouco mais quem optou por guitarras, violões, baixos, violinos e cellos.

Retomando a história do mestre universal da música, foi em 1740 que Vivaldi realizou seu último concerto em homenagem ao príncipe da Polônia, Frederico Cristiano. No mesmo ano, muda-se de Veneza para Viena a convite do Imperador Carlos VI.

Essa saída repentina da Itália é levemente obscura. Alguns estudos dizem que Vivaldi, percebendo a queda em sua relevância (devido à mudança de gostos musicais da sociedade italiana) começou a vender seus manuscritos à preços irrisórios para financiar sua mudança para onde era apreciado.

Outra linha de pesquisadores entende que houve uma proibição, por parte do arcebispo Tommaso Ruffo, de que o compositor entrasse em algumas cidades para apresentar seus concertos, dada sua aversão quanto ao envolvimento de padres (afinal, Vivaldi era formado como um) com espetáculos e entretenimento.

Independente dos motivos, como era comum para compositores da época, Vivaldi morreu completamente pobre no ano seguinte, 1741, devido à bronquite asmática que acompanhou o compositor por toda a vida.

Foi enterrado como anônimo e suas composições foram esquecidas por quase 150 anos, quando, em 1900, retoma-se os estudos sobre a obra do compositor.

Vale mencionar que Johann Sebastian Bach foi quase que diretamente influenciado por Vivaldi, transpondo suas arias para cravo e órgão.

E como é de se esperar, Igor Stravinski, que modernamente podemos chamar de “hater”, dizia que Vivaldi não tinha escrito tantas peças, mas apenas uma que tocou repetidas vezes.

De acordo com os pesquisadores, Vivaldi compôs 454 concertos, 75 sonatas, 40 operetas e 23 sinfonias.

Ele também estabeleceu os conceitos e formações definitivas do que é um concerto e do que é uma sinfonia, fora que também foi o compositor a usar de modo mais consistente o “ritornelo” (símbolo da partitura que indica a repetição de certa parte) em suas partituras.

É imprescindível que você, músico, não só conheça os mestres contemporâneos, mas também, estude e entenda um pouco dos clássicos, para que seu repertório só aumente.

E mais do que estudar e entender a obra, que encontre motivação na vida pessoal desses grandes compositores que o mundo todo nos ofereceu e Vivaldi é um deles.

Pesquise, ouça, sinta e aplique, para comemorarmos o próximo Dia Internacional da Música com muito mais Criatividade e histórias de como mantivemos a Pluma voando em 2020.

E agora, comente conosco: Já conhecia o compositor Vivaldi? Se sim, chegou a tocar algo dele? Qual o desafio de adaptar uma obra com mais de 3 séculos de idade para instrumentos atuais?

É compartilhando essas experiências e vídeos, caso os tenha, que espalhamos mais conhecimento e divulgamos música por esse mundo que, cada dia mais, precisa dela.

Seguro de que, continuaremos na primavera e nos encontraremos, saudáveis e protegidos, semana que vem, nos despedimos.

Um abraço!

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Dan Souza (IG: @danhisa) é músico, podcaster (IG: @somnascentepod), profissional de Marketing, Relações Artísticas, Branded Content e Music Business, formado pela UNINOVE.

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