Boas práticas no ensino musical online

Salve, virtual leitora e internético leitor, tudo bem com vocês?

Você já deve ter percebido, no título do texto, que uma das tendências pré pandemia, acabou se tornando uma alternativa válida de didática e aprendizagem (quase que à força) em praticamente todas as formas de transmitir conhecimento: o Ensino Online.

Ou, em termos mais técnicos, um simples acrônimo: EAD – Ensino À Distância – como já tenho certeza de que deve ter ouvido falar assim, mesmo que de passagem, quando procurou algum curso para fazer nessa Quarentena contra a disseminação do COVID-19.

No entanto, não é só por culpa da pandemia que estamos enfrentando, mas o mérito da do formato EAD pertence à tecnologia e ideias de muitos mestres e professores pelo mundo.

Apesar de parecer um conceito novo, que surgiu nos tempos de internet, o ensino remoto é tão antigo quanto o Incêndio de Copenhagen, que ocorreu em 1728.

Sim, século XVIII.

O primeiro registro de EAD foi feito na cidade de Boston, Estado Unidos, graças ao professor Caleb Phillips que ensinava, em cursos pelo correio, a quase esquecida arte da Taquigrafia, que é um método de abreviar a escrita usando símbolos e aumentando a velocidade – para quem teve ditados na escola, isso serviria muito bem.

À nível de Brasil, o primeiro registro de ensino à distância data de 1904, onde um anúncio nos classificados do extinto Jornal do Brasil, oferecia um curso de datilografia à distância – mais um curso que o tempo e as constantes inovações não perdoaram.

E como já mencionei aqui no blog SANTO ANGELO, nesses quase 3 séculos, o EAD passou dos livros para os VHSs, para os DVDs – ambos ainda utilizando os serviços de correio – e finalmente, absorveu a tecnologia de vídeo e de aulas ao vivo.

Esse breve histórico vai servir para que, com a ajuda de grandes professores e amigos músicos, eu desenvolva um rápido – porém, embasado – guia de boas práticas para o ensino musical, que nasceu a partir do post abaixo, publicado em uma das comunidades mantidas pela SANTO ANGELO no Facebook:

Como o número de respostas positivas surpreendeu a todos do time de comunicação da marca, optou-se pela ideia desse post ao invés de uma live ou de webinar para o tema para todos refletirmos a respeito. E desde já, agradeço ao Maurício Alabama e ao Kleber K. Shima pelas sugestões e troca de experiências nesse assunto.

E caso você não queira continuar lendo e prefere ouvir a minha voz e a voz dos professores, já sabe que esse e os demais conteúdos aqui do blog SANTO ANGELO estão disponíveis em todos os agregadores. Busque por BLOG SANTO ANGELO e vamos viajar no streaming.

Muito bem, você decidiu dar aulas online, certo? Siga esses passos iniciais para fazer tudo certo e ser bem aceito pelos seus atuais e futuros alunos virtuais.

PLANEJAMENTO

Propor e iniciar um curso em EAD exige tempo e planejamento prévio.

Ligar a câmera e “sair ensinando” não dá certo, por isso, a partir do momento onde o professor decide que fará um curso a distância, sentar-se em sua mesa, escolher o conteúdo, definir diretrizes são ações fundamentais e necessárias.

Nessa caminhada, o professor também pensa se o ensino será síncrono – professor e aluno conectados juntos – ou assíncrono – não necessita das duas partes juntas.

Como exemplo de ensino síncrono trago Kleber K. Shima quando dá aulas via Skype para seus alunos. Como assíncrono, cito o Maurício Alabama e seu curso sobre Modos Gregos, já gravado e o aluno acessa de onde e como quiser.

Lembrando que o professor pode usar ambas as abordagens em momentos específicos, como por exemplo, aquele que está “presente” com um ou mais alunos pelo Skype ou YouTube, mas que depois manda material já gravado pelas vias privativas.

A ordem também é importante.

Pensar cronologia nos ensinamentos, para que o conteúdo faça sentido e cresça conforme o aluno for aprendendo, ajuda no sucesso do curso e no retorno positivo de quem está aprendendo.

Segmentar o conteúdo também melhora a absorção. Ao invés de aulas gigantescas – pensando nos modos assíncronos – separar um conteúdo em partes menores contribui para que cada técnica, cada teoria, seja aproveitada ao máximo.

Sempre lembrando que muita informação pode confundir os estudos posteriores do aluno.

Trazer conteúdos de fora, que complementem o aprendizado sempre faz com que o aluno aplique os conhecimentos nessas atividades extras. Pensando em Música, é propor um cover para tocar onde as técnicas aprendidas mais se aplicam.

Usar materiais de apoio como apostilas em .pdf, áudios, backing tracks (as trilhas de apoio) entre outros, também auxiliam no dia a dia de aula. Se o material será próprio ou de terceiros, fica à critério do professor escolher e tomar os devidos cuidados quando Direito Autorais estiverem envolvidos, como já foi explicado nesse post do blog SANTO ANGELO.

Para fechar a soma do planejamento, pense na atratividade dos conteúdos, iniciando com conhecimentos mais facilmente aplicados e executados e os deixando mais difíceis ou trabalhosos conforme o tempo.

A experiência do Maurício Alabama com seus alunos fez com que ele trocasse a hora de ensinar partituras. Explico melhor.

No começo de suas aulas, a partitura era um dos primeiros assuntos e, pela dificuldade de aprendizado, acabava desanimando os alunos logo no início do curso, porém, com o tempo, e percebendo esse desânimo, ele moveu a parte teórica para o final do módulo.

Portanto, siga seu método, mas fique atento para mudar pontualmente caso perceba que o aluno (ou alunos) estão com dificuldades para absorver o conteúdo.

INFRAESTRUTURA

As aulas presenciais contam com uma infraestrutura já bem conhecida – sala de aula, mesa, cadeira, computador, instrumentos, cabos SANTO ANGELO, caixas de som, amplificadores etc. – e para EAD não é diferente.

Obviamente, o professor não pode exigir do aluno uma sala preparada – seria o mundo ideal – mas a seu próprio local de trabalho precisa estar bem montado e funcional.

Iluminação, bom posicionamento da(s) câmera(s), visual atrativo da sala – e com poucas ou nenhuma distração – e o visual do professor.

Lembro-me de um vídeo, gravado pelo músico Airton Mann, brincando com os tipos de professor. Não ser uma caricatura, mas sim alguém que passa confiança no conteúdo, ajuda a receber melhores feedbacks dos alunos.

Outra questão importantíssima é a sua conexão de internet.

Escolher planos que ofereçam altas taxas, de upload / download, mantém a boa qualidade das aulas ao vivo e diminui o tempo de envio de vídeos já gravados.

Todavia, o aluno pode não ter uma conexão tão boa, mas o professor usando uma banda larga de qualidade já mitiga muitos problemas no desenrolar da aula.

A plataforma utilizada também se encaixa nesse quesito, sendo as mais comuns o Skype e Whatsapp para aulas ao vivo, porém, tendo Telegram, Whereby e Zoom correndo pelo lado e quase alcançando esses dois gigantes das comunicações. Todas elas gratuitas.

Se o seu caso são cursos já gravados as possibilidades são o Eadbox, Edools, SambaPlay, Hotmart Club e Apollo. Todas essas plataformas são pagas, porém, contam com recursos bem específicos de didática, organização de módulos, avaliações sem contar a entrega de relatórios a quem ministra os cursos.

Como referência, conheça e siga todos os músicos endorsees da SANTO ANGELO que também são professores, observe seus cenários de vídeos e suas aulas online. Todos têm preocupação com infraestrutura e não é à toa que são tão reconhecidos pelo Brasil.

ESTUDO E ATUALIZAÇÃO

O professor precisa estar atento às novas tecnologias, didáticas e conhecimentos. Manter-se atualizado para que seu conhecimento seja sempre aproveitado e gere interesse.

Na música, entende-se que o conhecimento já foi quase todo descoberto e explorado, no entanto, buscar onde estão as informações faltantes e complementá-las é trabalhoso, mas possível.

Formas de estudo – as quais já tratamos aqui no blog SANTO ANGELO – também são conhecimento necessário ao professor. Sugerir essas novas formas à alunos que não estão se acostumando com as mais corriqueiras, é uma forma de atualizar as habilidades.

Adquirir conhecimentos fora do âmbito do ensino também ajuda. Edição de vídeo, marketing digital, fotografia ou design artístico e até mesmo outra língua, como Inglês e Espanhol, podem contribuir para o sucesso de um curso EAD.

Você, mais do que ninguém, deve saber que nenhum conhecimento pode ser descartado.

ALUNOS E ROTINAS

Cada estudante tem seu jeito, seu ritmo, suas capacidades e dificuldades.

Para conteúdos síncronos, o entendimento de cada perfil ajuda que o curso se desenvolva com mais facilidade e com bons resultados. O contrário também é verdadeiro porque não entender o aluno pode gerar ciclos viciosos de tentativa e erro, onde é necessário repetir cada conteúdo de formas diferentes, sem de fato tirar proveito.

Alguns alunos funcionarão olhando, entendendo e executando na hora. Outros necessitarão de aprendizagem ativa, onde o professor sugere um tema, o aluno pesquisa e já vai para a aula com tudo estudado.

Podem até existir aqueles que funcionarão com metas bem estabelecidas, aprendendo pelo Amor, enquanto outros, infelizmente, só no dolorido “puxão de orelha” – aprenderão pela Dor, lembrando, que as “broncas” virtuais afetam muito o emocional do aluno, pois é dolorido demais para qualquer um constatar que não consegue aprender a tocar um instrumento musical do dia para noite.

Exigir uma rotina de estudos também afirma o interesse que o professor tem na evolução do aluno, quando nos momentos de dificuldade o mestre oferece formas de se adequar o tempo que o estudante tem disponível para que tire maior proveito de cada módulo ou tema.

Porém, ter cuidado com a insistência é essencial, para que o aluno não enxergue o professor como “aquele chato que fica me cobrando toda hora”.

AVALIAÇÃO

Apesar da palavrar relembrar as tão temidas provas da escola regular, o sentido aqui é mais amplo e bidirecional.

Do lado do aluno, avaliar sua evolução, sob o ponto de vista no seu desenvolvimento nas aulas é ferramenta necessária para entender como melhor adaptar o tempo para cada realidade, pensando apenas no conteúdo ao vivo.

Já nos casos gravados, propor desafios (lições de casa) ou provas para que sejam entregues – seja um vídeo executando o exercício, seja uma ferramenta virtual de partitura onde o aluno precisa preencher com figuras para se adequar ao tempo da música – gera informações sobre a evolução de cada um.

Não quero mencionar clichês dos campos de futebol, citando que “cada um é cada um”, mas cada aluno é singular e todos merecem atenção individual focada por parte do professor.

E já que você está acostumado como as técnicas do mundo corporativo, como exemplo do Mundo VUCA dos meus posts anteriores, sabe o que é Avaliação 180o?

É aquela que os alunos avaliam o professor.

Ou seja, pedir aos alunos que informem sobre suas impressões, pontos positivos e negativos, funcionalidade da didática aplicada, conteúdos que sentem falta e quaisquer feedbacks que agreguem ao trabalho do professor.

Além dessas avaliações, o professor também precisa de uma auto avaliação, entendendo o conjunto todo que oferece aos alunos.

Nessa hora, eu arrisco trazendo outra fórmula bem “corporativa” de entender à si mesmo: a Análise SWOT, acrônimo de Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats (que aqui no Brasil pode ser conhecida como FOFA, de Forças Internas, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças).

Saber quais são os seus pontos fortes no ensino e aqueles que precisam ser melhorados ou que estão fracos no momento e quais são oportunidades oferecidas pelo momento econômico além da falta de algum conhecimento que pode desaminar os alunos e fazê-los buscar seus concorrentes ou escolas mais conhecidas, são estratégias que como deve conhecer para seguir em frente com seu curso online e/ou presencial.

Entendeu agora porque te falei das técnicas de análise do Mundo VUCA nos meus posts anteriores.

Voltando à Matriz SWOT, apesar de uma forma bem metódica e corporativa, essa análise pode servir bastante como autoavaliação, porém, existem outras metodologias que podem ser aplicadas. Para isso, deixo um estudo bem focado na autoavaliação de professores, tese esta composta por Carlos Alberto Ferreira e Cristina Oliveira. É só clicar nesse link.

Resumindo, criar um curso não é tarefa fácil ou curta, mas uma prova de resistência, racionalidade e outras habilidades.

Esse breve guia foi feito para que você, caso tenha vontade de ensinar à distância ou mesmo já ensine e quer renovar algumas de suas metodologias, para que tenha base comprovada de quem já conseguiu sucesso dessa forma e consiga, através das notas e dos ritmos, espalhar a Música para cada um que ouça esse chamado, arrisco eu, transcendental.

Hoje, o terreno é muito fértil para ideias e dispõe de múltiplas ferramentas que podem ser utilizadas para trazer cada lampejo quimérico para mundo dos sentidos, quase um EAD Platônico.

E é nesse momento que eu também agradeço ao grupo de professores que interagem sempre com a SANTO ANGELO, que além de sugerir essa pauta, ajudam todos os dias compartilhando suas experiências de sucesso e fracasso, para que nós, juntos, construamos um ensino musical cada dia mais forte e mais preparado para cada mudança que o mundo nos trará.

Muito obrigado a todos do fundo do meu coração.

E você, como está lidando com aulas EAD? Seja você aluno ou professor, deixe seus comentários, tanto do blog quanto das redes sociais da SANTO ANGELO, dizendo o que tem feito ou visto. Sua visão desse assunto é muito importante, pois queremos incentivar quem ensina cada vez mais!

Por último conselho, use máscara e cuidado com as mãos quando sair de casa, pois espero que nos vejamos, saudáveis, na semana que vem.

Um grande abraço!

 

Dan Souza (IG: @danhisa) é músico e profissional de Marketing, Relações Artísticas, Branded Content e Music Business, formado pela UNINOVE.

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