Streaming musical e remuneração justa

 

Olá, streamada leitora ou mais ouvido leitor, tudo bom?

“Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará

A vida vem em ondas, como um mar
Num indo e vindo infinito”

Mais um post que começamos, aqui no blog SANTO ANGELO, lembrando a música “Como uma Onda”, assinada pelo último romântico (na definição do próprio) Lulu Santos, que nos faz pensar sobre as constantes mudanças, tanto aqui no Brasil, como no mundo todo, quando o tema é Música e a forma que a escutamos.

Antes de seguir, porém, queremos tentar adivinhar de você que está lendo essas mal traçadas linhas (ops.. cuidado que esse tal de Romantismo pega mais que o novo coronavírus, hein?) do blog: está ouvindo uma música nos earphones, ou mesmo, caso esteja ouvindo o podcast, fazendo-o através dos famosos serviços de streaming, como Spotify, Apple Music, Deezer entre outros.

Acertamos?

Desde 2016, a gente já vem falando de Streaming, como nesse post sobre como promover sua música nas plataformas disponíveis naquela época, mas chamamos sua atenção para esse post de 2017 mostrando a consolidação delas, além de destacar a transição histórica desde a invenção do Fonógrafo e outros meios analógicos até os digitais.

E mais uma vez o poeta acerta quando complementa na mesma música:

“Tudo o que se vê não é
Igual ao que a gente viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo”

Portanto, entre nesse “wormhole” temporal, relendo os links acima e se prepare para ler sobre as mudanças que trouxemos em mais um assunto inovador aqui no nosso blog.

Enquanto você domina a Ansiedade para continuar lendo, lembramos que existe a opção de ouvir esse e outros conteúdos do blog no Spotify, clicando na imagem abaixo, ou se preferir usar outro agregador, procure e siga “Blog SANTO ANGELO” onde quiser!

Voltando ao tema de Streaming, a presença cada vez maior de apps nos nossos celulares, executando músicas e podcasts, é quase ininterrupta. Afinal, são leves de baixar, oferecem versões gratuitas e nas versões pagas, os valores são bem acessíveis.

Acredite ou não, a Geração X (nascidos entre 1960 e 1980) ou até alguns tardios Baby Boomers (nascidos entre 1940 e 1960), para ouvirem uma de suas músicas prediletas repetidas vezes, ou compravam o álbum ou esperavam tal música tocar na rádio para gravá-la em uma fita K7 (leia casséte, ok, membro da Geração Z ou mais avançado da Geração Alpha, nascidos a partir de 2010).

Para aquele pessoal, se quisessem ter uma variedade de músicas, era preciso comprar toneladas de discos de vinil (os famosos LPs), fitas K7, CD’s ou ter um “amigo” que fazia isso, aceitava “encomendas” e gravava as músicas escolhidas em uma fita K7 ou CD “virgem”.

Sim, a pirataria sempre deu um jeito de existir, seja no meio analógico, seja no início da migração para os sistemas e mídias digitais.

Aqueles que não viveram essa época, já chegaram em um mundo onde a disponibilidade musical está bem mais espalhada, mais acessível e, com certeza, acostumaram-se rapidamente às novas tecnologias digitais.

O tempo foi passando e começou uma “guerra dos clones” onde toda gravadora ou startup resolveu usar o Streaming (mas aqui na terra e não em Kamino) como base do próprio modelo de negócio para enfrentar os gigantescos donos do mercado (até então)

Isso aconteceu tanto no ramo musical como nos ramos de vídeo, aplicativos de carona, delivery de comida e toda sorte de tecnologias que estão agora, dentro do nosso bolso.

Sabem de quais plataformas estamos falando, certo?

Como os músicos são bem rápidos, correram para registrar suas músicas em todos os aplicativos para que pudessem ser ouvidos em todo o canto, com a promessa de que as plataformas redistribuiriam suas rendas com assinatura e anúncios de acordo com sua quantidade de “streams” (execuções no linguajar desses apps).

Se ainda não fez isso, ou não seguiu nossa recomendação de ler esse post anterior, sugerimos que faça isso agora, para saber como registrar suas músicas e vídeos agora mesmo.

Entretanto, como efeito negativo de toda ascensão de plataformas digitais de músicas, mudou bastante o panorama inicial e diminuiu drasticamente os recebimentos dos músicos autores, mesmo com as plataformas mantendo o formato inicial de distribuição de valores devidos.

Ou seja, muita oferta, gerando uma concorrência infernal para disputar a preferência dos nossos tímpanos, faz com que pensemos: Será que as plataformas de streaming pagam bem ou o suficiente para um músico viver?

A resposta, como você já deve imaginar, é não.

Para prosseguirmos, quero que você entenda que apenas divulgar suas músicas nos app’s musicais não é o suficiente, a não ser que você seja ouvido milhões (e não falamos de forma figurativa) de vezes, como demonstraremos mais à frente.

Ou seja, qualquer plataforma não o remunerará pela sua audiência total, mas sim pela sua participação no “mercado particular” de cada uma delas.

Enxergamos que esse tipo de modalidade de distribuição musical tem, digamos assim, “salvado” o mercado de acordo com a Fortune, mas precisamos, antes de tudo, ter a noção exata do que se passa dentro de cada plataforma com relação à estrutura de distribuição de royalties artísticos.

Feito esse alerta, sigamos.

Em 2019, o site The Trichordist coletou dados de todas as plataformas de streaming musical possíveis (mais de 30 delas, e você pensando que só temos 3 ou 4, né?) e fez simulações usando os dados dessas empresas para entender as distribuições de receita.

O cenário que parecia animador em um primeiro momento, afinal se constataria uma distribuição justa de royalties das músicas, começou a ficar mais depressivo.

Uma análise rápida mostra que, para ganhar US$ 0,00074 (sim, menos de um centavo de Dólar Norte-americano), você precisa de pelo menos 818 visualizações no Youtube, que apesar de uma plataforma de vídeo, representa 8,38% dos streams de Música no mundo.

Aliás, já falamos nisso recentemente nesse post

Para o Spotify, o valor é bem melhor. Para ganhar US$ 0,003 (sim, continuamos abaixo de 1 centavo de Dólar Norte-americano), você precisaria que ouvissem sua música 154 vezes.

Não deixa de ser aterrador também esse cenário, mas lembremos que o Spotify é responsável por quase 50% dos streams de música no mundo todo e, como conclusão, talvez possa ser mais fácil atingir um valor interessante de remuneração através dessa plataforma.

Já o Deezer e o Apple Music (fechando o quarteto brasileiro dos serviços mais utilizados), oferecem respectivamente US$ 0,006 para cada 98 plays e US$ 0,007 para cada 78 plays.

A pergunta que agora não quer calar seria: “mas onde eu consigo pelo menos US$ 0,01 com o mínimo de streams?”

O Tidal, serviço encabeçado pelo rapper Jay Z, paga US$ 0,01 a cada 47 vezes que sua música é executada, porém, a plataforma só atinge 0,5% de “Market share” (a fatia de mercado que representam).

O único serviço que, em 2019, oferecia um valor interessante era o Akazoo, que pagou US$ 0,53 para cada execução musical, mas por ser uma plataforma bem limitada, atinge pouquíssimas pessoas.

Nesse momento de pandemia e isolamento social, seria interessante você pesar receita e possibilidade de ser ouvido, em plataformas que te ofereçam um público maior.

Abaixo, relacionamos o TOP 30 de serviços de streaming para fazer suas comparações.

Fonte: The Trichordist

Prosseguindo nos estudos com números imensos (ou imensamente baixos, se preferir), a “BroadBandChoices” forneceu alguns dados junto com o “The Trichordist” para criar uma noção de quantos streams são necessários anualmente para que um músico consiga um salário mínimo em seu país em cada plataforma.

Alguns números impressionam, como o exemplo da Austrália, onde para se conseguir atingir o patamar de AU$ 2.963,00 (salário em Dólares Australianos) com música no Youtube, você precisará de mais de 40 milhões de visualizações no ano. Fácil, fácil, hein?

O melhor cenário foi encontrado no México, usando o “Tidal”, que exige cerca de 127 mil plays anuais no “Tidal” para retornar Mex$ 3.078 (Pesos Mexicanos).

Percebe que não fazemos conversões, pois estamos adequados aos salários de cada país, onde os gastos serão feitos na moeda corrente local? Mas se você quiser saber os valores citados acima em Reais Brasileiros, é só converter usando esse link do Banco Central.

Observemos agora, como ficam esses números aqui no Brasil:

O salário mínimo em 2019 era de R$ 998,00. Atingir esse patamar é bem trabalhoso em nosso país, pedindo cerca de 790 mil plays no Spotify, 470 mil no Apple Music, 5 milhões no Youtube, 270 mil no Tidal, 540 mil no Deezer e 860 mil no Amazon Music.

Cifras de streaming gigantes para cifras monetárias ridículas, concorda?

Se continuar curioso, abaixo você pode conferir o comparativo com outros países.

Fonte: BroadBandChoices

Agora que já sabe como cenário e valores são desafiadores, talvez se convença do quanto é difícil para se viver de Música, pois é exigido um trabalho incessante para conquistar certa estabilidade financeira.

Tudo está tão mal distribuído que, no Reino Unido, o movimento Broken Record está ganhando força para cobrar dos serviços um pagamento mais condizente com quem escolheu a carreira musical e se utiliza das plataformas para ser ouvido.

Apesar de toda a revolução que o streaming fez com o consumo musical, quem produz e compõe ainda precisa ter como mantra uma frase que você, nossa leitora ou leitor mais assíduo está careca de ler aqui no blog SANTO ANGELO:

Diversificação das suas atividades como músico!

Ter múltiplas opções é como você conseguirá atingir públicos em todos os lugares, tanto online como offline, simples assim.

Pense também que não deve, necessariamente, investir todas as suas fichas na Música, mas em outros mercado que você ache interessante, como por exemplo fazendo chaveiros, camisetas ou canecas para somar ao merchandising da sua marca, ou até expandindo marca para os ramos café ou cerveja (existem muitos casos nacionais de cervejas sem que o investimento tenha ficado tão alto).

Analisar e pensar, apesar de parecer coisa de administradores de grandes empresas, é o que todos temos que fazer para nos adaptarmos aos cenários “VUCA” que aparecem pela frente e para continuarmos a perseguir nosso sucesso como profissionais do mundo da Música.

Sem querer esgotar o assunto, já que a evolução dos negócios é um “indo e vindo infinito”, esperamos sinceramente que as informações que leu aqui hoje, sejam relevantes para guiar suas escolhas de streaming daqui para frente.

Agora nos conte: já tem suas músicas em algum serviço de streaming? Tem ganhado dinheiro com elas? Recomendaria para outros músicos essa incursão às plataformas musicais?

É compartilhando esses dados e experiências que reforçamos nosso compromisso com você, músico ou música (feminino de Músico, uma vez que Musicistas todos nós somos), criando uma rede de interessados em fazer da sonora arte, algo que alimente não só a alma, mas também, os próprios e não alheios bolsos de quem explora nossas composições.

Certos de que não precisaremos de mais do que 604.800 segundos para nos vermos novamente, com saúde e distanciamento social, despedimo-nos com um forte, fraternal e oceânico abraço.

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Podcast:
Effects: Disney, iFood, Netflix, Uber, Universal Pictures, Youtube
Music: “S” de SID, “Como uma Onda” de Lulu Santos, “Hold On” de Yes, “For the Love of Money” de The Ojays, “Save Me” de Queen, “Justice League” de Danny Elfman & “Justice [from] Guilty” de Glay
Opening by: SID

Dan Souza (IG: @danhisa) é músico, podcaster (IG: @somnascentepod), profissional de Marketing, Relações Artísticas, Branded Content e Music Business, formado pela UNINOVE.

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